Uma terra ressequida onde o tempo não passa, onde os vínculos familiares se desfazem como em fogo lento e a vida se deteriora numa espera entorpecida pela morte: é nessa atmosfera de aridez literal e simbólica que se passam os contos de “Chão em chamas” (1953), de Juan Rulfo.
No calor escaldante das planícies mexicanas, entre ruínas e paisagens desoladas, a natureza é ora hostil e impiedosa, ora uma força impassível, indiferente aos dilemas humanos.
O autor não escreve sobre tragédias definitivas, mas sobre vidas cujos desfechos são indefiníveis. Inconclusivos no plano da trama, mas conclusivos no plano simbólico: os finais de seus personagens não se resolvem — se perpetuam.
Muitos personagens alimentam esperanças, prometem voltar, conseguir algo, reencontrar alguém, mas as estruturas físicas, morais, sociais e políticas que os cercam os paralisam. Acabam, então, vagando sem um propósito alcançável, até que suas vidas se esfarelem, lentamente e sem estardalhaço, como carne apodrecendo ao sol.
A prosa circular de Rulfo trabalha em espiral e não linearmente; opera sobre lacunas, silêncios e tempo suspenso. Raramente se expõem fatos de modo direto, e a cronologia, frequentemente, é truncada. São marcas modernistas do estilo do escritor, que exigem do leitor um papel intelectualmente ativo na reconstrução da trama.
Quem aprecia fruição estética se deleitará com passagens de lirismo extremamente sofisticado nos contos mediados por narrador impessoal. Já nas histórias contadas em primeira pessoa, a linguagem oral economicamente articulada permite o reconhecimento imediato da realidade do personagem, sem necessidade de explicações.
Ainda que em “Chão em chamas” o elemento sobrenatural não seja tão explícito quanto no romance “Pedro Páramo” (1955), há uma constante sensação de que os personagens vagueiam entre os mundos dos vivos e dos mortos; caminham, errantes, em dissolução, até que se dê seu completo desaparecimento. Sobre eles, pairam sombras escuras e diligentes como urubus, ávidos por devorarem os restos — e não é por acaso que urubus voam em círculos.
“Chão em chamas” foi uma das estreias mais audaciosas da literatura do Século XX. Ombro a ombro com estreantes como James Joyce (“Dublinenses”) e João Guimarães Rosa (“Sagarana”), Rulfo demonstrou que os contos são tão valiosos para a grande literatura quanto os romances e novelas. E, com as duas obras que publicou em vida — apenas duas, monumentais —, não só entrou para o cânone como se consagrou um dos maiores ficcionistas de todos os tempos.