Há tempo, comprei esse pequeno livro em um sebo, mas não sei por que motivo, caiu no meu esquecimento. Não podia imaginar que esse pequeno livro continha grande conteúdo, que nos é dado conhecer pelo monólogo de Frederick e pelo diário de Miranda.
Eu sou expert em fazer leituras tortas e penso que O Colecionador foi mais uma vítima dessa minha mania.
Em um primeiro momento, achei que a força narrativa recaia sobre o poder ( suposto poder , claro) que o dinheiro confere às pessoas. No romance, esse mal o do suposto poder acometeu Frederick. Após ganhar uma vultosa fortuna, o jovem um modesto e anti-social funcionário público - que , até então, se contentava com o amor platônico que nutria pela linda e brilhante Miranda se julga no direito de privá-la da sua liberdade mantendo-a prisioneira por aproximadamente 60 dias. Frederick acreditava que se Miranda o conhecesse melhor acabaria correspondendo aos seus sentimentos, porém, contrariando qualquer expectativa, a jovem o menospreza, o deprecia e se julga muito superior a ele.
Entretanto, ao conhecer o diário de Miranda, a ideia do dano provocado pelo dinheiro foi por mim colocado a um segundo plano, pois não pude ignorar um aspecto que me pareceu mais predominante na leitura que fiz: de como somos manipulados e, muitas vezes, sequer damos conta disso.
Em seu diário, Miranda deixa transparecer sua fragilidade e o quanto se assemelha a Frederick. Tal qual Frederick, Miranda desprezava a mãe. Tal qual Frederick, Miranda a jovem brilhante e segura- era desprovida de vivencia sexual. Miranda quer impor seus gostos, seus ideais, seus livros a Frederick. Ela quer esculpir, manipular a personalidade de Frederick, com a sua foi esculpida e manobrada por G.P .É nesse entendimento que consiste minha transgressão, a minha leitura torta: Miranda era medíocre, tinha baixa auto-estima, e , assim como Narciso viu sua imagem refletida na água, eu vi a imagem de Miranda refletida em Frederick. Achei ambos tão parecidos que cheguei até imaginar que Miranda e Frederick fossem uma só pessoa - semelhante o filme Psicose - , contudo, não foi essa a surpresa que John Fowles reservou para o final do livro.
O Colecionador é um livro denso e tenso. Ele aborda as diferentes privações e prisões, e como também eu fui aprisionada pelas suas 234 páginas, julgo ser ele merecedor de 5 estrelas.