A acuidade e precisão das análises de Bradley são majestosas. O livro é uma junção de 10 palestras/aulas compiladas em um todo coeso. As duas primeiras palestras tratam da "Substância da tragédia" em Shakespeare e da "Construção da tragédia", respectivamente. O autor nos mostra como se delineia uma essência comum aos escritos trágicos de Shakespeare e como se erige a estrutura de tais escritos. As oito palestras seguintes são dedicadas às chamadas "grandes tragédias" que contemplam o período da maturidade da arte shakespeareana. É um texto prazeroso para qualquer amante de Shakespeare. É prazeroso porque temos a oportunidade de acompanhar um crítico apaixonado pelo seu objeto de analise, desempenhar com maestria seu oficio. Há, contudo, de se fazer um adendo quanto à esta paixão: ela é diferente por exemplo daquela que impulsiona Harold Bloom. Bradley é muito mais dialético em sua crítica, apesar de sempre ter o texto de Shakespeare na mais alta estima, o autor procura justificá-la, seja a partir da análise minusiosa das personagens principais, heróis e heroinas das tragédias, ou através de seus diálogos, interrelações, anseios, linguagem, ações, e faz isso tudo contrapondo suas sustentações à outras já famosas análises de Shakespeare. Bradley é capaz de dissecar o caráter do príncipe Hamlet, assim como de Iago (em Othello), e nos mostrar que a maior conquista de Shakespeare é o modo como sua arte trágica foi capaz de trazer a tona o amálgama de sentimentos, impulsos e paixões tão contraditórios que são o núcleo duro daquilo que chamamos de "humano". Como diria George Steiner em "A morte da tragédia": 'o trágico é o embate do homem com o mundo, em que o primeiro sai perdendo'. Mas é no sofrimento que reside o fundo didático da tragédia, e o período maduro de Shakespeare é um convite à esse aprendizado incessante.