Se você viu essa capa e já se recordou de tê-la visto anteriormente, esse livro pode vir a ser uma grande nostalgia para você. Estou falando isso pois ele deu vida a um filme homônimo de 1979 que fez muito sucesso no mundo inteiro, incluindo o Brasil. De cara, um fato interessante, é que nesse caso em particular, o livro não teve grande impacto no seu lançamento, vindo a se popularizar apenas após a versão cinematográfica chegar às telas de todos os cinemas e televisões dos EUA.
O livro foi escrito por Sol Yurick que, após se formar em literatura, trabalhou até o início dos anos 60 como assistente social. Nesse período teve bastante contato com delinquentes juvenis e foi com base nesses encontros que ele se inspirou para escrever essa estória.
O livro acompanha um verdadeiro dia de cão de uma gangue ficcional de adolescentes conhecida como Dominadores. Toda a confusão começa quando eles aceitam um pedido de trégua e vão a um território neutro da cidade para encontrar as principais gangues e ouvir a proposta que um de seus líderes tinha para eles. Uma utopia que previa a união de todos como forma de subjugar toda a cidade em que se encontravam espalhados. O problema é que as várias guerras entre as gangues, o clima tenso, as diferenças ideológicas, o racismo, a xenofobia e, principalmente, o orgulho reunidos em um mesmo local, fizeram com que o sonho se tornasse pesadelo num piscar de olhos. Com a reunião dando errado, a trégua foi encerrada e os protagonistas se encontraram em território inimigo e sem proteção. Daí, meu camarada, é cada um por si e Deus por todos. Eles começam um processo de fuga e vão deixando rastros de violência por onde quer que passem.
O livro é muito descritivo, e por conta disso, pode acabar sendo um pouco massante para o leitor. No geral, isso não me incomodou. Gostei da forma como a dualidade de um grupo criminoso de crianças/adolescentes e sua infantilidade/imaturidade foi colocada. Pelo núcleo em que cresceram e pelas experiências vivenciadas, acredito que não tinham sensibilidade pela gravidade dos crimes cometidos. No mesmo instante em que assassinavam e estupravam, eles brincavam e agiam como se nada tivesse acontecido. Outro ponto interessante é o quanto a masculinidade tóxica é retratada. Se não fosse por isso 90% dos problemas não aconteceriam. Não que isso seja algo exclusivo de jovens, mas acredito que nessa faixa etária é bem mais potencializado. Um outro ponto que chama a atenção é a forma como o autor consegue passar os sentimentos dos protagonistas para quem está lendo. Como nunca tive vivência em uma gangue, é difícil pra mim imaginar como uma simples volta no metrô, de madrugada, pode ser motivo de tamanha tensão, ou como o fato de mostrar fraqueza para os outros membros pode te colocar em uma situação de rebaixamento ou até desligamento. Essas sensações foram o que mais gostei no livro e o que me fizeram ficar preso a história.
De ponto negativo eu diria que a parte dos estupros foi bem difícil de ler. Inclusive isso pode ser gatilho para algumas pessoas que já sofreram algum tipo de violência sexual. A forma como o autor coloca o ato, deixando claro que as mulheres abusadas, de alguma forma poderiam sentir prazer e curtir o que estava acontecendo é no mínimo escroto e mentiroso. A misoginia e a homofobia também são realidade em vários momentos da estória. Acredito que, por se passar no ano de 1960 com o patriarcado ainda muito forte e pouco questionado, além de um conservadorismo em relação à sexualidade, estes foram os responsáveis por dar tom ao livro.
Ele foi lançado pela Editora Darkside e contém toda a qualidade esperada de um livro lançado por eles. Capa dura e edição bonita e bem trabalhada! A história não é perfeita, mas fez sentido pra mim, principalmente pensando na idade dos protagonistas. Levanta bastantes questionamentos, principalmente sobre o quão responsável uma família disfuncional é pela formação ou, no caso, não formação da personalidade de seus filhos. Como isso pode ter impacto nesses jovens, levando-os a buscar um sentimento de pertencimento a algo maior, como por exemplo, o crime organizado. Tendo isso tudo posto, diria que é um livro okay e que vale a leitura. Não é uma obra prima, mas me entreteve na última semana.
Agora, pra finalizar, vou assistir ao filme e completar toda a experiência de acompanhar por um dia, toda a loucura na vida de um Dominador em fuga pela cidade de Nova York!
Valeu!