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    Volto semana que vem -

    Maria Pilla

    Cosac Naify
    2015
    96 páginas
    3h 12m
    ISBN-13: 9788540509184
    Português Brasileiro
    3.5
    209 avaliações
    Leram301Lendo18Querem244Relendo1Abandonos2Resenhas21
    Favoritos7Desejados244Avaliaram209

    "Volto semana que vem” é o que a narradora deste livro responde ao pai ao sair de casa num dia de 1970, quando ele pergunta, espantado, aonde ela vai. “Mais de dez anos se passaram até eu voltar àquela cozinha”, conclui ela em seguida. Composto por recortes de memória, o livro é o retrato de uma vida brasileira exemplar: a de quem foi criança logo depois da Era Vargas (o dia do suicídio de Getúlio é uma das primeiras cenas evocadas aqui), cresceu nos tempos de Juscelino, foi jovem com a ditadura, militou com a esquerda, conheceu a prisão, a tortura e o exílio. Apesar da violência de boa parte das lembranças que compõem essa vida, o humor e a percepção do sabor das coisas transformam o que poderia ser amargura numa luminosa declaração de alegria irredutível. Porto Alegre está presente nos primeiros quadros, das décadas de 1950 e 60 -- o bairro do Partenon, o bonde, o Grupo Escolar, a Faculdade de Direito. Depois vêm as décadas tumultuadas de 1970 e 1980, das prisões e da tortura, do heroísmo, da utopia e da derrota: a Oban em São Paulo, as prisões de Olmos e Villa Devoto em Buenos Aires, os companheiros militantes. Em seguida o exílio na França: verão em Montmartre, o encontro com outros exilados, a vida prossegue. Fechando o círculo, Porto Alegre outra vez, nas memórias contemporâneas.

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    Berttoni Licarião26/08/2019Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Conheci a Maria Pilla durante a III Jornada de Crítica Literária: Literatura e Ditadura aqui na UnB (Universidade da Balbúrdia). Naquela ocasião, a autora apresentou uma palestra intitulada “O direito à memória como princípio de justiça”, título que por si só já introduz a jornalista-ativista e sua única obra publicada, o romance-relato Volto Semana Que Vem (infelizmente ainda sem casa desde o fechamento da finada Cosac). Neste livro curtinho e poderoso, Pilla afixa lembranças na parede da memória, quadros de um tempo de militância, torturas, prisões e exílio, vivido entre Brasil, EUA, França e Argentina—onde foi presa e torturada em 75. . O foco de Pilla não é, contudo, as atrocidades sofridas sob governos antidemocráticos (dos 56 fragmentos de memória que compõem a obra, apenas um remete explicitamente à tortura, o assombroso trecho datado de 2003 “A gatinha do edredom”). Procedendo por meio de enquadramentos, a autora embaralha textos breves e móveis, às vezes pedaços de fragmentos espaço-temporais, como de sua infância em Porto Alegre ou dos momentos de sororidade na prisão argentina, e consegue, com isso, estar em vários lugares ao mesmo tempo, criando sua própria gramática da memória, desorganizada mas pulsante de interlocução. . Ao se demitir do silêncio institucional e provocar formas de sentir o trauma, a literatura continua e ser a “maldição das ditaduras”, nas palavras de Alberto Manguel. Perante os mecanismos de embargo jurídico, a resistência burocrática dos arquivos, e a continuidade de uma exceção provocada, em certa medida, pela ausência de elaboração traumática, escritores se veem diante da tarefa essencial de usar a memória para historicizar o presente. Maria Pilla, inesquecível e muito querida, faz isso com os olhos atentos da testemunha que sabe da importância de se contar o que viu. Aproveito para deixar recomendado aqui o vídeo que a @bdebarbarie fez sobre o livro em seu canal do YouTube: sucinto e preciso como eu acho que todo vídeo de booktuber precisava ser.

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