O livro de Conquest é uma imperdível obra-prima de história. De tão alta qualidade que nas suas mais de quinhentas fornidas páginas dificilmente se encontrará algum juizo de valor que permita acusar o autor de anti-comunismo (apesar de ter sido acusado “... de colocar a sua produção acadêmica ao serviço dos objectivos da propaganda política anti-comunista”. O que há ali, em altíssima dosagem, é uma minuciosa pesquisa, um levantamento como poucas vezes se terá visto na historiografia contemporânea. Alguma coisa à altura da grandiosidade dos crimes e das deformidades do regime stalinista — onde o que em algum momento fora política no mais genuino sentido do termo, política praticada por uma comunidade de homens muitíssimo bem preparados e perfeitamente conscientes dos seus métodos e objetivos, viria a se tornar puro banditismo (“a política como tal havia desaparecido”, diz Conquest), executada por uma quadrilha de sujeitos moralmente degradados encastelada num estupidamente poderoso aparato de Estado, conscientes da brutalidade dos seus métodos e da natureza das suas mentiras. Acompanhada de uma extensa análise que tenta alcançar nas estruturas e nos métodos do partido bolchevique as raízes da deformação stalinista, mas não apenas ali, a pesquisa de Conquest é às vezes de tirar o fôlego. Se há problemas nas análises ou em aspectos delas, e certamente há, de forma nenhuma eles estão lá onde se poderia verificar a depreciação do trabalho do historiador.
O Grande Terror - Os Expurgos de Stalin
Robert Conquest
Impactante
Em 1968 o mundo ainda vivia o romantismo do comunismo quando Robert Conquest munido de cartas, documentos oficiais, depoimentos de desertores e prisioneiros soviéticos; tendo como base também livros de dissidentes e o discurso secreto de Kruschev publicou O Grande Terror revelando a extensão do terror stalinista dos expurgos. O livro é composto por dois tópicos: O Expurgo e os Anos de Yezhov (chefe do NKVD, a polícia secreta). No tema do expurgo Conquest busca no passado soviético as origens do terror, inclusive citando que Stálin em alguns aspectos, seria uma criação, uma consequência da figura política de Lenin, no qual a esquerda discorda. É revelado a fabricação do jogo político com os bastidores no embate das facções para que o ditador estivesse preparado nos objetivos. O autor britânico sustenta que o início do expurgo ocorreu com o assassinato de Kirov, um líder bolchevique morto à mando de Stálin, embora alguns críticos dizem que não há provas concretas. As circunstâncias do crime de Kirov são abordadas em detalhes e em paralelo com a política. A análise da personalidade do ditador em conjunto com a arquitetura da perseguição aprofunda no leitor um melhor entendimento do contexto do terror. Gostei particularmente da abordagem na esfera do partido e os correligionários para compreendermos a mentalidade do grupo perante a postura na política e no meio social. Já no tópico do tempo em que Yezhov permaneceu no cargo, são abordados os fatos ocorridos sob sua administração. A perseguição ocorria contra os civis e contra o exército que mais tarde se mostraria um erro pela falta de experiência dos militares em enfrentar a invasão nazista. Os tentáculos do terror atingiram as lideranças militares e a população que vivia em constante tensão. Dos vários casos um dos mais notórios é o falsificado julgamento do Marechal Tukhachevsky (comissário-executivo para a Defesa) condenado e morto. Mais do que necessário, o escritor também contextualiza a relação do exército com o partido e o desdobramento no expurgo. O terror não se atém somente à União Soviética, repúblicas como Geórgia, Ucrânia, Bielorrússia por exemplo sofreram o ataque letal com acusações e remoções do partido. Os expurgos tiveram efeitos devastadores no psicológico da população, com uma nação em constante tormento e os efeitos no comportamento das pessoas como o caso estarrecedor do filho acusando e entregando os pais à NKVD. O partido era acima de tudo e de todos. O clímax do livro são os julgamentos espetáculos e os pormenores. São apresentados personagens como Bukharin e sua estranha confissão, Pyatakov, Rykov, Krestinsky dentre outros e as evidências (falsificações). As acusações vão de conspiração para derrubar Stálin à sabotagem numa fábrica para colocar pregos na manteiga. O autor demonstra na proporção das circunstâncias evidências do que o acusado jamais esteve em tal local. Há julgamentos que sequer teve a presença do juiz levando apenas 10 minutos para ser julgado. As torturas e as prisões feita pela NKVD ganham destaque à parte. Os métodos de torturas, as instalações das prisões e o perfil dos presos levam o leitor a uma leitura mais atenta sem deixar de sentir uma certa apreensão. Como o expurgo tinha várias formas de punição, uma delas o condenado sendo enviado ao campo de trabalhos forçados ou GULAG, é outro capítulo à parte. Dados como censo, perfil e rotina dos presos complementa o expurgo. Estrangeiros que estiveram na Rússia no período do terror também sofreram perseguições o que levou a divulgações de testemunhos no ocidente. O assassinato de Trotsky - inimigo de Stálin - também é abordado embora de forma breve. Após a leitura percebemos os motivos de em 1968 o livro ter causado grande impacto na consciência do ocidente já que foi o pioneiro em revelar o terror do expurgo. Conquest convence o leitor na investigação histórica de forma imparcial, embora pessoas próximas do escritor afirmassem que ele era extremamente antissoviético. Mesmo dispondo de poucas fontes comparada à liberação dos arquivos em 1991 (ano do colapso da URSS) o autor apresenta um livro profundo e de grandes revelações. Há quem diga que o livro é uma mentira e possui falhas, mas após a dissolução do país comunista e liberação de maiores arquivos o autor lançou uma edição revisada (The Great Terror: A Reassessment) confirmando o horror do regime.
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