José Saramago foi um dos grandes expoentes da ética materialista contemporânea, uma espécie de humanismo laico adotado basicamente por todos os herdeiros atuais do Iluminismo. A força desse pensamento é tamanha que "humanismo laico" é quase sinônimo de "bom senso" para as pessoas de boa educação.
Pois esse livro desafia esse imenso consenso (que engloba opiniões de esquerda e de direita), ao se perguntar: o que é, do ponto de vista filosófico, a bondade? O que a justificou, do ponto de vista racional, desde os antigos sofistas até os dias atuais?
As conclusões desse pequeno ensaio são explícitas: o super-hegemônico humanismo laico é só um hábito mental. As tentativas de fundamentá-lo foram superficiais e, desde os gregos antigos, dúbias. Isso nem significa uma condenação da razão, nem um elogio à superstições. Significa apenas que a bondade - essa bondade que me fez sacrificar alguns minutos para escrever essa resenha em favor de desconhecidos, e que fez o leitor a lê-la em busca de aperfeiçoamento - tem uma natureza não redutível à tolos cálculos de utilidade egoísta. Significa que a bondade (surpreendentemente para um leitor em pleno ano de 2016), tem uma natureza metafísica.