24/08 - 04/09
"Naquela terra de pecado, quente como seiscentos diabos..."
É assim que começa esse romance histórico fantástico de um dos nossos conterrâneos Aydano Roriz. Baiano, criado em Salvador ele escreve vários romances que contam a história do Brasil. Nesse é contado a história de Duarte Coelho.
Durante a escola, na pressão do Enem e nos livros didáticos vemos repetidamente esse nome, relacionado as Capitanias Hereditárias. Mas na pressa por continuar e nas poucas linhas dessas décadas perante os séculos deixamos passar despercebido.
Duarte Coelho foi um dos dois donatários a obter sucesso na sua empreitada aqui no Brasil. Construiu uma cidade que nomeou Olinda, contruiu engenhos, lutou contra invasores e fez acordos e guerras também com as diferentes tribos de nativos. Para o bem ou para o mal esse empreendimento faz parte de nossa história e nos define como brasileiros, uma mistura de diferentes povos de todos os continentes, terra quente como os diabos, terra abençoada, terra onde tudo é possível, terra do Brasil.
Seguem alguns trechos do livro:
Se estás certo de chegar, para que apressares a viagem?
Não existe desgosto, preocupação, nem peso de consciência, que o sono de um dorminhoco não consiga vencer.
“O que pouco custa, menos se estima”
“A vida é muito mais do que um brilhante interlúdio entre dois nadas”.
Se títulos e bens são transmissíveis por herança, com o verdadeiro poder nunca é assim. O elixir da credibilidade não está à venda nas boticas. Confiança precisa ser construída. Conquistada.
Oportunidades são como as águas de um rio: nunca passam duas vezes pelo mesmo local.
Contra a má sorte, coração forte.
Os homens tolos, e mais ainda os jovens em fase de instrução, gostam de se vangloriar da própria masculinidade.
A medida da dor é coisa muito pessoal. Os outros só compreendem nossos sofrimentos por uma analogia muito vaga. E cada sofredor reage à sua maneira.
Ações reais devem ser julgadas moralmente corretas segundo o poder de maximizar a satisfação, ou de minimizar a dor daqueles a quem afeta.
Em todo o caso, como um cavalheiro que adotou a gravidade como base do caráter, o impulso final era sempre suplantado pelo senso de responsabilidade. Se fosse um colono qualquer… Não era. Afora o receio de vir a ser chantageado, afora temer escândalos, como capitão-donatário, era preciso ter cem vezes mais razão para não ser considerado culpado.
À donzela honesta, só o homem certo faz a festa.
Toda resolução é tomada num momento. Seja lá o que for que se pretenda, chega-se ao instante em que é forçoso decidir. A partir de então, quanto mais se alinham razões a favor e contra, o fatal “se eu quisesse mesmo” acaba por prevalecer. Ah, que tentação é recordar o sabor da volúpia! Afastando da mente as leis da prudência, desejoso de prazeres a qualquer preço, com o coração aos pulos, decidiu-se.
Duarte, que a tudo assistia ao lado do pai, comportava-se com a discrição que convém a um moço bem-visto, benquisto, mas que conhece o seu lugar na hierarquia do tempo. Homens mais velhos não apreciam a intromissão de rapazes em seu meio. Se estimados, até lhes aceitam a presença. O bom senso, todavia, manda que os jovens demonstrem interesse, sorriam ou frisem as testas, quando for o caso, permanecendo, contudo, de bico calado. Questão de experiência. Frango é frango, galo é galo, e ninguém nunca soube de frango que tivesse ensinado galo velho a cantar.
Duarte estava chocado com a crueza das palavras do pai. Chocado, conquanto agradavelmente surpreso. As naturezas fortes são sempre um tanto críticas. O universo dos homens parecia ter lá os seus mistérios, e ele, era forçoso admitir, mal e mal tinha posto os pés naquele mundo.
Entre um inferno que um dia decerto acaba, e o fogo dos tormentos eternos, a primeira opção é sempre preferível.
Os achaques morais têm uma imensa vantagem sobre as enfermidades físicas: curam-se instantaneamente com o fim do motivo que os fizeram nascer.
Mas não viemos para cá, eu e as minhas gentes, em busca de riqueza fácil– continuou Duarte Coelho.– Acredito… ou melhor, acreditamos, que só o trabalho constrói. Trabalho duro e persistente.
Alegres são as chegadas. Despedidas costumam ser tristes.
Nada como a promessa de riqueza para exacerbar a cobiça nos homens.
O coração feminino é sempre generoso com um homem ridículo por amor.
Para alguns homens, que nos seus verdes anos priorizaram escolhas medíocres, a idade madura, os quebrantamentos do corpo e do vigor físico, não deixam de configurar um esquisito alento. Se, na maior parte da vida, se sentiram um pouco invejosos dos afoitos e bem-sucedidos, os primeiros cabelos brancos são para eles como uma coroa de louros. Encaram a proximidade da velhice como ascensão a uma categoria superior, arquivam definitivamente os sonhos e passam a viver de reminiscências.
Para outros, o pratear dos cabelos é uma indicação de que a vida entrou em curva descendente e é preciso aproveitar o que lhes resta de tempo. No anseio de deixar no mundo uma marca qualquer, os desejos da mocidade voltam com mais força e, não raro, se deixam arrastar a todo tipo de ridículos.
Existe, todavia, um terceiro tipo de homens maduros, que mal conseguem se enxergar com a idade que têm. Sabem que o ocaso está logo mais à frente, conquanto se esforcem para encará-lo como a linha do horizonte, à qual, por mais que se ande, nunca se chega. Assim, ao sabor dos seus humores, ora rebelam-se contra o inexorável, ora conciliam o que parece inconciliável. Às vezes demonstram o ímpeto e a ousadia dos jovens, outras a sabedoria e a prudência dos anciões. Críticos por excelência, não deixam de julgar estranho o próprio comportamento. Em contrapartida, conseguem confundir a todos, a maior parte do tempo.
Todas as mulheres gostam de se sentirem amadas. E se tal sentimento tem a ver com atenções e gestos de carinho, parece que, ainda mais forte, são os prazeres físicos que possam advir daí. Diz o populacho em sua vulgaridade: “mulher bem-comida, mulher cativa”. Sábio aforismo.
“É melhor perder tentando ganhar, que estar certo de perder sem fazer coisa alguma”
“Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré”.
Dinheiro faz milagre
(...) Desapontamento dos que arquitetam fantasias e deparam-se com realidades que decepcionam.
“Podes lá ser rei, mas cagas, mijas, peidas; não és melhor do que eu”.