Entre nós

    Philip Roth

    Editora Companhia das Letras
    2008
    176 páginas
    5h 52m
    ISBN-13: 9788580866025
    Português Brasileiro

    Philip Roth costuma ser associado a seus romances, que incluem algumas das obras-primas da literatura de língua inglesa publicadas nas últimas cinco décadas, como O complexo de Portnoy, O teatro de Sabbath e Homem comum. Mas Roth tem um lado menos conhecido: é também crítico, ensaísta e memorialista notável.Entre nós reúne entrevistas feitas por Roth com outros escritores e seus ensaios sobre os colegas de ofício (e um pintor), bem como cartas trocadas entre eles. Ao contrário do que se poderia esperar, o tema predominante neste livro não é a literatura em si, as técnicas de escrita de ficção, e sim um ponto que para Roth é fundamental: a relação entre o artista e o mundo exterior, seu meio, sua cultura e seu tempo. E, embora muitas vezes o que ouvimos seja a voz de outro escritor, predominam as preocupações e as obsessões do próprio Philip Roth. Não por acaso, um dos temas de destaque no livro é a condição de judeu - são judeus sete dos dez escritores discutidos, além do artista plástico Philip Guston. Outra questão, discutida principalmente nas conversas com dois tchecos - Ivan Klíma e Milan Kundera -, é a do conflito entre o artista e as instituições de seu país. O texto sobre Bernard Malamud é um relato ao mesmo tempo afetuoso e implacável sobre as relações de Roth com um escritor que teve grande impacto em sua formação. O ensaio sobre Saul Bellow é um estudo aprofundado que, além de defender a importância de Bellow na literatura norte-americana, comprova que Roth é não apenas um grande romancista como também um crítico de primeira. Na troca de correspondência com Mary McCarthy, Roth discute as ressalvas da escritora americana ao romance O avesso da vida.Outros escritores entrevistados por Roth são o vencedor do prêmio Nobel de literatura Isaac Bashevis Singer; o italiano Primo Levi, que produziu algumas das maiores obras literárias que tematizam o Holocausto; o escritor israelense Aharon Appelfeld e a irlandesa Edna O'Brien.

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    Paulo Henrique Alves de Sousa05/06/2018Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Sobre "Entre nós"

    Livro lido 1°/Jun//30°/2018 Título: Entre nós - Um escritor e seus colegas falam de trabalho Título original: Shop talk - A writer and his colleagues and their work Autor: Philip Roth (EUA) Tradução: Paulo Henriques Britto Editora: @companhiadasletras Ano de lançamento: 2001 Ano desta edição: 2008 Páginas: 176 Classificação: ???????? _______________________________________________ Roth -- Deus o tenha! -- com sua exuberância estilística, sua lubricidade refinada, sua habilidade rara de ser profundo sem ser tedioso, é o meu escritor predileto. Sua morte ainda recente é um baque para os amantes de sua prosa instigante, envolvente, ácida e por isso magistral. Livros como "O complexo de Portnoy", "Pastoral Americana" e "O teatro de Sabbath" figuram entre suas obras mais contundentes e bem construídas. Dada a miopia institucional da bancada do Nobel de Literatura, é grande a indignação de o grande romancista jamais ter logrado o prêmio. . O Roth romancista também era bom em escrever outras coisas. O livro que acabo de ler, "Entre nós", é uma perfeita lição para quem faz entrevistas. Admirável o preparo dele (sabe tudo sobre a obra dos entrevistados), a agudeza das perguntas, a maneira como aproveita as respostas para seguir adiante, a forma como demonstra sua admiração sem jamais bajular. (Penso cá comigo que escolas de jornalismo deveriam exigir que seus alunos lessem "Entre nós" para aprender a arte da entrevista). . O livro gira em torno de conversas com amigos escritores, e Roth selecionou um super time, integrantes mais que merecidos na série A da literatura. Primo Levi, sobrevivente dos campos de concentração nazistas, Aharon Appelfeld, Ivan Kima, Isaac Bashevis Singer, Edna O'brien e Milan Kundera (todos escritores do Leste Europeu e muitos deles fugitivos dos regimes de seus países). Uma lista memorável de grandes escritores, que se utilizaram de suas tragédias pessoais para compor livros que todos deveríamos ler. O livro ainda traz uma parte da correspondência de Roth com Mary McCarthy (Roth tenta mitigar a aparente indignação da leitora sobre os símbolos e ícones religiosos), os desenhos de Guston para "O seio", o romance kafkaesco de Roth, os retratos da obra de Bernard Malamud (autor que pretendo ler em breve) e as impressões do próprio Roth sobre suas leituras das obras de Saul Bellow. As passagens destacadas abaixo mostram um pouco do primor que é o livro: . "(...) os escritores, tal como o resto da humanidade, se dividem em duas categorias: os que sabem ouvir e os que não sabem" - Conversa com Primo Levi (Posição no Kindle 43/3%). . "Por favor, me dê o direito de ser incoerente: no campo de concentração nosso estado mental era instável, oscilando a cada hora entre a esperança e o desespero" - Conversa com Primo Levi (Posição no Kindle 126/5%). . "Até hoje existe a crença generalizada de que os judeus são criaturas ágeis, espertas e sofisticadas, cheias de sabedoria mundana. Mas não é fascinante ver como foi fácil enganar os judeus? Com truques quase infantis eles foram reunidos em guetos, obrigados a passar fome por meses, estimulados por falsas esperanças e por fim jogados em trens que os levariam à morte" - Conversa com Aharon Appelfeld (Posição no Kindle 368/16%). . "Todo aquele que passou por um campo de concentração na infância - que já foi totalmente dependente de um poder externo que a qualquer momento pode entrar e espancá-lo, matá-lo, a ele e a todos que o cercam - provavelmente vive o resto da vida de um modo ao menos um pouco diferente das pessoas que foram poupadas desse tipo de formação" - Conversa com Ivan Klima (Posição no Kindle 965/41%). . "Os escritores não costumam receber um jovem vindo do interior e dizer imediatamente: 'você é nosso irmão, nosso mestre' - eles não costumam agir assim. O mais provável é que tenham dito: ''mais um chato com um original debaixo do braço'" - Conversa com Isaac Bashevis Singer (Posição no Kindle 1223/52%). . "Quando uma grande potência quer privar um país pequeno de sua consciência nacional, ela utiliza o método do esquecimento organizado. E uma nação que perde a consciência de seu passado acaba por perder a identidade" - Conversa com Milan Kundera (Posição no Kindle 1387/59%). . "É o preço que se paga por ser escritor. A gente vive atormentada pelo passado - dores, sensações, rejeições, e por aí vai. Eu realmente acredito que esse apego ao passado é um desejo insistente, ainda que fadado ao fracasso, de reinventá-lo de modo a modificá-lo" - Conversa com Edna O'brien (Posição no Kindle 1472/62%). . "O Natal - ou seja, a idéia da Encarnação - não é apenas ódio aos judeus. Sem dúvida, já me ocorreu que todas essas canções de Natal devem parecer ofensivas àqueles que não compartilham da bem-aventurança por esse acontecimento maravilhoso" - Correspondência com Mary McCarthy (Posição no Kindle 1630/69%).

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