Ao contrário do que pode parecer, não é uma história romântica. É um livro que provoca reflexões sobre o que significa viver em uma sociedade extremamente conservadora, como é o caso do Irã, escancarando o quanto o controle sobre os corpos femininos e sobre as expressões de gênero e sexualidade está enraizado em regras sociais, culturais e religiosas. Ser mulher, nesse contexto, significa nascer com um destino praticamente imposto para se casar e cumprir funções que a sociedade patriarcal determina. A própria ideia de liberdade, para mulheres e pessoas LGBTQIAP+, é praticamente inexistente.
Uma das questões que mais me surpreendeu na leitura foi descobrir que, apesar de toda essa repressão, a cirurgia de redesignação sexual é legalizada no Irã. Não por uma abertura em relação à diversidade, mas porque, para o Estado, é mais aceitável transformar alguém em um cidadão dentro da norma do que aceitar sua homossexualidade. Isso, por si só, levanta discussões muito complexas sobre identidade de gênero, orientação sexual e o quanto essas questões são tratadas de forma distorcida sob a ótica de regimes extremamente conservadores.
A narrativa traz muitas passagens chocantes, que, infelizmente, já conhecemos de forma geral, punições severas, como enforcamentos, e até o cerceamento das mínimas liberdades individuais, como a forma de se vestir. Mais do que uma história sobre amor, este livro é um convite à reflexão sobre as diferenças culturais entre Ocidente e Oriente, sobre os limites da liberdade em determinados contextos e, principalmente, sobre o peso de nascer em um país onde sua existência pode ser considerada crime.
Acho muito fácil, para nós que estamos de fora, julgar e perguntar Por que essas pessoas não saem desse país?. Mas o livro deixa claro que essa não é uma decisão simples. Existe uma relação profunda com a cultura, com a família, com o lugar de origem. E é preciso compreender que nem sempre migrar é uma possibilidade real, muito menos desejável, para quem tem raízes, afeto e história ali.
O livro tem, alguns pontos que poderiam ser mais bem desenvolvidos, e melhor aprofundado em alguns personagens e conflitos. Ainda assim, é uma leitura válida, necessária e rara, principalmente por abordar uma temática sáfica em um contexto tão pouco explorado na literatura.
Vejo obras assim como fundamentais, não só por darem visibilidade às vivências LGBTQIAP+ em países onde ser quem se é pode significar ser visto como inimigo do Estado, mas também por nos fazer refletir sobre privilégios, empatia e resistência. Terminei a leitura com vontade de encontrar mais livros sáficos que tragam esse tipo de narrativa.