Este livro-reportagem de Lícia Loltran é um convite à desconstrução de estereótipos sobre os relacionamentos homoafetivos. Há, na sociedade, uma distorção quanto ao público e o privado dessas relações e uma tendência em limitá-las, apenas, ao campo do sexo e da intimidade (privado) e não ao da afetividade, da busca pela felicidade e do respeito à diversidade. De forma humana e sensível, Lícia Loltran traz para o público leitor histórias de vida que ressaltam a busca pela felicidade fora dos padrões judaico-cristãos. Essas histórias também destacam as dificuldades de casais homoafetivos na legalização de suas uniões, nas adoções e, principalmente, na superação de preconceitos. Mesmo que o teor militante não se faça presente nos textos, este livro é, na verdade, uma brilhante iniciativa de humanizar casais de mulheres com filhos que fogem da heteronormatividade, mas que, para existirem, tiveram de se sujeitar a leis e à ordem estabelecida. Nesse sentido, o livro tem uma perspectiva política, pois traz situações decorrentes da própria luta dos casais homoafetivos, como a superação de barreiras familiares, sociais e institucionais. Tudo isso sem cansar o leitor, pois cada narrativa está recheada de detalhes, singularidades que, no conjunto, se tornam plurais. Na verdade, a leitura de Famílias homoafetivas: a insistência em ser feliz é mais que um convite à reflexão sobre o sentido de democracia e de respeito à diversidade em uma sociedade ainda homofóbica. Céres Santos Jornalista e mestre em Educação e Contemporaneidade
Famílias homoafetivas - A insistência em ser feliz
Lícia Loltran
Que livro necessário!!
Como pessoa Queer, sinto uma conexão profunda com livros que abordam questões relacionadas à identidade sexual. Reconheço que a minha capacidade e liberdade de viver minha sexualidade e desfrutar de direitos básicos hoje, se devem aos esforços e sacrifícios das pessoas que vieram antes de mim, enfrentando preconceitos e desafios imensos. Por isso, valorizo e me posiciono firmemente em questões relacionadas à minha identidade sexual. É claro que, para nós, Queer, ainda há um longo caminho a percorrer; estamos longe de alcançar a igualdade plena. Nos últimos anos, fomos testemunhas de discursos e ações absurdas que tentaram minar nossos direitos conquistados. Livros que exploram essas realidades desempenham um papel crucial na sociedade por desafiar estereótipos e promover a visibilidade dos relacionamentos homoafetivos. Isso desafia a visão limitada que muitas vezes reduz esses relacionamentos à questão da sexualidade, mostrando que eles também envolvem afeto, amor e a busca pela felicidade. Ao dar voz a casais homoafetivos e suas lutas, esse livro oferece uma perspectiva humana e sensível sobre os desafios enfrentados para conquistar direitos básicos como a legalização de uniões, a adoção de filhos e o reconhecimento de suas famílias na sociedade. Essa visibilidade é essencial para a humanização social. O que para mim é impossível não refletir sobre o significado de democracia e respeito à diversidade, destacando a importância da luta por direitos iguais e a necessidade de superar barreiras sociais e institucionais. Embora o livro não se apresente como uma obra militante, ele carrega uma forte perspectiva política ao evidenciar as batalhas diárias desses casais contra uma ordem estabelecida que muitas vezes não reconhece ou respeita suas existências. Isso contribui significativamente para a discussão sobre direitos civis e sociais, sublinhando a importância de uma sociedade mais justa e equitativa. A sensibilidade com que Lícia narra essas histórias, ricas em detalhes e singularidades, não só informa, mas também cria uma conexão emocional com o leitor. No entanto, é importante notar que o livro, escrito em 2014/2015, utiliza alguns termos hoje considerados incorretos, como escolha de ser gay. Atualmente, sabemos que essa expressão é inadequada e ofensiva, pois não se trata de uma escolha, e sim de uma identidade. Ninguém escolheria passar por preconceito ou sofrer humilhação. Com o tempo, temos desconstruído termos e compreendido melhor nossos preconceitos, o que é demonstrado também por este livro, e faz parte do nosso crescimento como seres humanos. Ao considerar essas mudanças, podemos apreciar a evolução das discussões sobre diversidade e inclusão, para alcançar uma sociedade mais justa e empática. Todo o meu reconhecimento e respeito para essas mulheres incríveis que tiveram a coragem de viver suas verdades muito antes de a homossexualidade deixar de ser considerada uma patologia. Antes do surgimento das siglas GLS, em um país que ainda estava se libertando das sombras da ditadura militar. A força e a determinação dessas mulheres foram fundamentais para a conquista dos direitos que temos hoje.
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