Suely Rolnik, em seu livro Cartografia Sentimental: transformações contemporâneas do desejo, contempla-nos em forma de ensaio uma inusitada viagem pelo mundo da psicanálise e da subjetividade. Resultado de sua tese de doutoramento, a autora usa vocábulos e conceitos próprios e nos conduz a uma viagem cartográfica em companhia das noivinhas. São personagens (ou máscaras) que funcionam como figuras conceituais em sua análise das transformações do desejo feminino na sociedade do capitalismo industrial.
Dividido em duas partes, dois livros, dois estilos, independentes e interdependentes. No livro um, a autora compõe uma concepção de desejo. Usando uma linguagem cinematográfica e o olhar subjetivo de uma câmera, onde o cartógrafo caminha para mapear os movimentos do desejo. Outro conceito fundamental para a compreensão
do texto de Rolnik é o da micropolítica. Questões que envolvem os processos de subjetivação em sua relação com o político, o social e o cultural, por meio dos quais se configuram os contornos da realidade em seu movimento contínuo de criação coletiva integram esse conceito para acompanhar a trajetória das noivinhas. Além disso a autora ainda nos apresenta a figura do cartógrafo, situando como o "psicanalista cartógrafo".
Na segunda parte do livro, Rolnik nos mostra como essas noivinhas vivenciaram as transformações que ocorreram no ocidente, sobretudo o Brasil, com o surgimento da mídia de massa. A autora nos relata que, nesse processo de desterritorialização da subjetividade, as mulheres foram as mais atingidas. Seguindo a expedição do cartógrafo, presenciamos
os destinos das três noivinhas cartográfadas: Elas se transmutam em militantes, feministas, hippies, liberadas e alternativas dentre outras.
Em sua jornada, o cartógrafo encontra no carnavalismo a força que revitaliza a configuração da noivinha. Além disso, a antropofagia explicitada por Oswald de Andrade, age como dispositivo que melhor as noivinhas podem lidar para desterritorializar e/ou territorializar seus desejos, remetendo ao que a autora chama de o "antropófago-em-nós".