Depois de me aventurar nas incríveis páginas de “Neve” e nas enfadonhas de “O livro negro”, era com receio que eu encarava o próximo livro de Orhan Pamuk, um autor que, antes de conhecer, tinha a sensação (sem trocadilhos) de que ia adorar logo de cara – o que acabou não acontecendo. Em dúvida entre o magnum opus “Meu nome é vermelho” e o recente, porém não pouco aclamado “Uma sensação estranha”, optei pela segunda, assim a frustração poderia ser menor.
A grandiosidade desta obra, no entanto, era algo que eu, sinceramente, não esperava encontrar, tudo porque o livro fala muito mais que a vida de um personagem ao longo das décadas, com todos os dilemas morais, éticos e religiosos com que foi confrontando no decorrer da vida. Sim, temos como fio condutor Mevlut Karataş, um vendedor ambulante de iogurte e boza (bebida típica turca) que vive em uma aldeia no interior da Turquia. Logo no início tomamos conhecimento que o mesmo está fugindo para Istambul com uma moça, a quem ele vira apenas uma vez em uma festa de casamento, mas que, no momento da fuga, Mevlut percebe não se tratar de quem ele imaginava, mas sim a irmã de sua amada.
Tal plot já seria o suficiente para encarar o desfecho dessa história de amor às avessas, e por que não dizer impossível?, mas Pamuk vai muito mais além, dando ao leitor muito mais motivos a se agarrar à história e não largar mais. É através de Mevlut, essa pessoa tão simples, tentando sobreviver em uma metrópole, que conhecemos a imponente Istambul, esta cidade, hoje a quinta mais popular do mundo, a antiga Bizâncio e Constantinopla, local da divisão dos continentes europeu e asiático; um país em constante choque entre moderno e tradicional, ocidental e oriental.
É através de Mevlut que acompanhamos todos as transformações, inclusive físicas, mas culturais, religiosas e políticas que assolam Istambul entre os anos de 1969 e 2012, um bom tempo para entender a cidade. Eu, como futuro arquiteto, fiquei vislumbrado com os acontecimentos, já que a história de uma cidade é do meu interesse, logo, ver reformas sanitárias, nascimentos e mortes de bairros, centros comerciais e periféricos, assim como reorganização de muçulmanos, turistas, ricos, pobres, classes em ascensão e declínio. No entanto, quem não tem interesse ou não se envolve, direta ou indiretamente no ramo e/ou assunto, certamente vai passar as páginas sem enfado, afinal, tais painéis são ditos não com didatismo, e sim com amor.
Uma carta de amor à Istambul, como dito na quarta capa, “Uma sensação estranha” sana qualquer dúvida que o leitor possa ter depois de encarar “Neve” e “O livro negro” e eventualmente não ter gostado. Com um enredo básico, sem floreios, que é a vida de um cidadão comum tentando ser alguém bem sucedido na vida, Orhan Pamuk suscitou bem mais alegria e aconchego que livros com quebra-cabeças elaborados.
Através da bela história de um vendedor ambulante comum e sua trajetória ao longo das décadas, “Uma sensação estranha” apresenta toda a imponência e graciosidade de Istambul, além de todo o amor do autor por ela. Esta sim, o leitor reconhecerá, é a verdadeira protagonista.
Este livro faz parte do projeto "Lendo Nobel". Mais em: