Editora Record, 1979, Rio de Janeiro, 536 páginas.
Trecho Predileto de CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA de Lúcio Cardoso, por Sandra Abrano
Na pilha de livros que quero ler, coloquei os escritores brasileiros como prioritários.
LÚCIO CARDOSO estava em minha lista há tempos. Bom, a fila andou e chegou a vez de CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA.
Densidade é que não falta ao livro.
E personagens carismáticos, alguns são sombrios outros estão submersos em mágoa. Técnica de escrita primorosa, registro de uma época e de uma classe social (a tal decadência de quem algum dia foi).
Sensação de sufocamento, afogamento, little death too, prazer e falta de ar, ai, quantas sensações doloridas em uma única leitura.
Diários, cartas, confissões, depoimentos, narrativas multiplicam as vozes que contam do amor, traição, mentiras, adultério, incesto e decadência, muita decadência.
Há limite para o amor e para a dor?
Trecho Predileto? Vários. Por ora, o trecho da p. 26:
Sem pressa, com a mesma timidez de quem desobedece ditames de uma lei oculta, inclinei-me e levantei a ponta do lençol. Foi a primeira vez que vi o rosto de um cadáver, e aquilo deu-me uma sensação estranha como se uma música longínqua, em acordes muito finos, vibrasse em meu espírito. Ah, seria impossível expressão humana modificar-se com maior rapidez: nela, de linhas tão suaves e perfeitas, tudo havia sido vincado com violência, desde os cílios alongados, um tanto excessivamente, até a testa branca, larga demais, e a curva acentuada das asas do nariz, positivando um aspecto inesperado de semita. E em torno deste rosto, a rigidez estabelecera uma aura intransponível.
Bem se via que a morte não era uma brincadeira,
que o ser estabelecido originalmente,
e toscamente modelado em barro pelas mãos de Deus,
ali irrompia de todos os disfarces, para se instalar onipotente em sua essência mais verídica.
Bem se via também que tudo se achava definitivamente dito entre nós. Inúteis as palavras que haviam sobrado, os afagos que não haviam sido feitos, as flores com que ainda pudéssemos adorná-la. Libertada, repousava em sua pureza final. Ah, e inútil também tudo o que não fosse fúria e submissão. Sem resposta, como se nós, criaturas, nada mais merecêssemos senão o luta e a injustiça, tudo terminava ali. E o que existira não passara de um sonho, de uma magnífica e passageira ilusão dos meus sentidos. Nada conseguiria mais romper o duro peso que se acumulava sobre meu coração, e diante daquela ruína, já tocada pela corrupção, eu custava a reconhecer aquela que fora o objeto do meu amor, e nenhuma lágrima, nem mesmo de piedade, subia-me aos olhos.
Tão sem pressa quanto suspendera a ponta do lençol, inclinei-me e beijei o rosto daquela mulher -- como já o fizera tantas e tantas vezes --, mas sentindo que desta vez era inútil e que eu já não a conhecia mais.
Sandra Abrano sobre CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA de Lúcio Cardoso.