A obra de Duchamp é bem ampla, apesar dele ter passado trinta anos sem criar, sendo um artista não deixou de pensar arte. Esse longo hiato foi nescessário a um homem que ficou oito anos trabalhando no Grande Vidro, e que passaria mais vinte em total dedicação a sua última obra. Se isso não for motivo para o considerar um artista a vida toda, o xadrez o é, pois requer arte.
Sua vida foi longa, morreu aos 81 anos, depois de ter passado como observador pela Primeira e Segunda Guerra Mundial (ele manteve distância por sua arte de ser indiferente, e o privilégio de ser salvo da França sem muitas dificuldades), ter revolucionado as artes, ter se relacionado com inúmeras mulheres e ter duas intensas paixões a arte ( na forma de humor não canonizada não era devoto, gostava mesmo de debochar dela, como no famoso caso R.T. Mutt e a sua fonte) além do xadrez nesse caso com uma maior dedicação.
O Calvin Tomkins , soube transformar a vida comum e solitária de Duchamp em uma biografia fascinante, com uma escrita fluida . Talvez não existam vidas desinteressantes mas biografos despreocupados (para não falar sem talento) em alguns momentos me senti lendo um romance sobre um artista e as reviravoltas de sua vida.
O autor pesquisou por 30 anos e dessa pesquisa resultou o livro, que demostra cada faceta da vida duchampiana a obra no entanto supera o artista e torna-se um enigma maior a cada nova olhada, principalmente as desconhecidas do grande público. O gás e a Água (Etant Donnes) era uma desconhecida e agora me é um objeto de fascinação.
A quem interessar possa: o epitáfio de Duchamp escrito pelo próprio é
" Aliás sempre são os outros que morrem." Isso se provou verdadeiro até agora, parece que a história da arte, o escolheu para a benção da posteridade.
A edição está cheia de referências a passagens do livro, que por sua vez referenciam obras do artista.
1- a jacket de acetato remete ao grande vidro ( ou a noiva despida por seus celibatários, mesmo).
2- a folha de guarda é verde como a caixa verde, e as valises feitas pelo artista para divulgar suas ideias e sua obra.
3- a orelha que é bem estilizada, é uma referência a um ready make feito por Rosé Selavy (um alter ego de Duchamp feminino).
É reconfortante saber que o editor respeitou o livro, que estava fazendo, que não foi feita uma capa genérica, com diagramação e revisão das mais porcas possíveis.
A tradução, diagramação e revisão são excelentes. Não entendo por que a Cosac Naify fechou as portas.
Para finalizar registro que sou apaixonada por arte moderna, e o livro apresenta um tur guiado por toda a obra de Duchamp que está em museus, em suma uma obra prima em forma de livro.