Ironia, sistema corrupto, cigarro e jazz no ar. Este não é o trabalho mais inspirado de Chandler. Diferente de Farewell, My Lovely, que parecia mais interessado na estética do que numa narrativa propriamente lógica, este livro se atém mais à cartilha do romance policial tradicional: crime, investigação e solução com reviravolta nas últimas páginas.
No início, fiquei um pouco desapontado, pois esperava uma prosa no mesmo nível de Farewell. Aqui, ela me pareceu mais seca e objetiva. Talvez parte disso também se deva à tradução. Pelo que pesquisei, o livro é uma mistura de três histórias pulp que Chandler havia escrito para revistas. O autor pegou três narrativas completamente diferentes e tentou costurá-las em um romance único, e isso é perceptível: o caso é complexo, cheio de tangentes, e por vezes me deixou desorientado.
Em alguns momentos, cheguei a duvidar que Chandler seria capaz de amarrar tudo o que estava sendo apresentado. Para minha surpresa, no entanto, tudo acaba fazendo sentido, ainda que algumas soluções sejam mirabolantes e o detetive pareça mais supor o que aconteceu do que propriamente provar. A conclusão do caso é repleta de hipóteses e “e ses”, e o leitor precisa simplesmente aceitá-los como verdade.
Dito isso, não consegui prever as reviravoltas de forma alguma. Terminei o último capítulo de queixo caído. E, no geral, me vi bastante entretido ao longo da leitura. Philip Marlowe tem um senso de humor maravilhoso. A trama não seria a mesma sem seus deboches e sacadas. É isso que mais brilha aqui. Além, claro, das inúmeras críticas sociais às instituições públicas e das reflexões acerca da moralidade e da natureza humana.