A Literatura Como Arquivo. Da Ditadura Brasileira -

    Eurídice Figueiredo

    7 Letras
    2017
    184 páginas
    6h 8m
    ISBN-13: 9788542105353
    Português Brasileiro

    Partindo de uma leitura precisa e criteriosa de um amplo leque de obras literárias de autores brasileiros contemporâneos – com destaque para o livro "K.: o relato de uma busca", de Bernardo Kucinski – e do diálogo com autores como Paul Ricoeur, Walter Benjamin e Jacques Derrida, este novo livro de Eurídice Figueiredo se afirma como uma obra fundamental para o estudo e o entendimento dos anos da recente ditadura militar no Brasil, com a análise de um vasto conjunto de elementos – relatos jornalísticos, narrativas de testemunhos e textos literários – em torno do período ditatorial. Trata-se de uma leitura praticamente obrigatória para uma reflexão mais ampla sobre os impactos do autoritarismo político na produção cultural do país.

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    Berttoni Licarião12/11/2019Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Para o historiador da ditadura militar Carlos Fico, “a história não é necessariamente capaz de elaborar a solução do trauma, como talvez seja a memória”. Partindo de um pressuposto semelhante, a pesquisa da professora Eurídice Figueiredo concentra-se no estudo de pouco mais de 50 anos de uma produção literária que trata, direta ou indiretamente, da história do Brasil entre as décadas de 1960 e 1980. Um amplo escopo que compreende desde lançamentos mais recentes, como as obras premiadas de Maria Valéria Rezende e Julián Fuks, quanto livros publicados durante os anos de repressão, a exemplo dos romances de Antonio Callado, Carlos Heitor Cony e Lygia Fagundes Telles. É importante ressaltar, todavia, que não se trata de um recenseamento exaustivo das obras produzidas sobre o assunto: o recorte em questão enfoca a reelaboração da experiência traumática da ditadura e a manutenção dessa memória na coletividade. . Aproveitando-se de um lugar de enunciação ainda sob o impacto do golpe parlamentar de 2016, o texto de Eurídice Figueiredo se articula como um discurso de resistência que aventa a necessidade de preservação da memória traumática do país. Para a pesquisadora, esse movimento ao mesmo tempo orgânico e político da literatura surge na contracorrente da morosidade do Estado brasileiro, que se recusa a revisar a lei da anistia e punir os culpados por crimes contra a humanidade, além de continuar “a praticar os mesmos crimes de tortura e morte, não mais por delitos de opinião, mas contra cidadãos das classes desfavorecidas que tenham ou não praticado pequenos crimes” (p. 39). O discurso da literatura expõe essa cultura da impunidade ao estabelecer vínculos entre passado e presente. . A literatura como arquivo da ditadura brasileira articula com clareza práticas discursivas variadas sem, contudo, fazer da literatura refém de categorias crítico-epistemológicas. Até esta data, trata-se do que a crítica literária contemporânea dispõe de mais atual em termos de catalogação e comentário de obras brasileiras sobre a ditadura militar.

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