Esse é um dos livros em que a composição da capa original mais detrata do que aprimora e facilita a venda, pois não é sobre algum malfadado romance, mas sobre como a religião modifica ou não os parâmetros sociais.
Em especial, Canaã busca retratar as diferenças entre a fundação de uma colônia alemã e as colônias portuguesas. Para isso temos Milkau e Lentz que, detentores de ideologias opostas, esmiúçam os particulares das famílias, das produções culturais e da religião.
Essa última é a que merece mais atenção, pois o autor faz questão de descrever as bases do luteranismo em oposição ao catolicismo vigente e é com o primeiro que temos o traçado da segunda parte da trama - uma reformulação da história de Maria pela sociedade formada.
O que antes apresentava um quê de maravilha se torna então uma crítica expositiva em que vemos que não obstante as diferenças ocasionadas pelo cisma religioso e outros pontos culturais, aquela pequena colônia ainda corrompia, julgava e oprimia a figura da mulher.
Um dos pontos mais interessantes da obra é ver a evolução de Graça Aranha em sua escrita, a forma gradual como vai transformando uma leitura descritiva e filosófica em algo alegórico. O final, por exemplo, onde há um tribunal, basicamente não oferece nomes aos Poderes lá representados... quase todos os personagens vão se despersonalizando e assumindo apenas os epítetos de suas profissões ou modos-de-vida.
É uma leitura que foge ao já conhecido e repetido "Engenho" da literatura nacional.
Recomendo.