Il y a longtemps que nous marchons. Ce sont des voix blanches qui nous ont appelés dans la nuit. Elles appelaient tous les petits enfants. Elles étaient comme les voix des oiseaux morts pendant l'hiver. Et d'abord nous avons vu beaucoup de pauvres oiseaux étendus sur la terre gelée, beaucoup de petits oiseaux dont la gorge était rouge. Ensuite nous avons vu les premières fleurs et les premières feuilles et nous en avons tressé des croix. Nous avons chanté devant les villages, ainsi que nous avions coutume de faire pour l'an nouveau. Et tous les enfants couraient vers nous. Et nous avons avancé comme une troupe. Il y avait des hommes qui nous maudissaient, ne connaissant point le Seigneur. Il y avait des femmes qui nous retenaient par les bras et nous interrogeaient, et couvraient nos visages de baisers. Et puis il y a eu de bonnes âmes qui nous ont apporté des écuelles de bois, du lait tiède et des fruits. Et tout le monde avait pitié de nous. Car ils ne savent point où nous allons et ils n'ont point entendu les voix. Sur la terre il y a des forêts épaisses, et des rivières, et des montagnes, et des sentiers pleins de ronces. Et au bout de la terre se trouve la mer que nous allons traverser bientôt. Et au bout de la mer se trouve Jérusalem.
La Croisade des Enfants -
Marcel Schwob
Oito Relatos
Determinar o que é fato ou lenda sobre a Cruzada das Crianças tem sido um desafio para os historiadores. Ao que tudo indica, em 1212, ocorreram duas movimentações de pessoas na França e na Alemanha cujas semelhanças fizeram que mais tarde fossem reunidas numa única história baseada na crença de que o Santo Sepulcro só poderia ser conquistado por crianças, pois, isentas de pecados, estariam protegidas por Deus. A bem da verdade, uma boa desculpa para justificar os fracassos anteriores para retomar Jerusalém — sob domínio turco — e reunificar o mundo cristão, dividido desde o Cisma do Oriente. Pesquisas recentes sugerem que essa cruzada não seria composta apenas por crianças, mas também por camponeses, mendigos e doentes. Inclusive, elas poderiam ser mais velhas do que se supõe, pois a palavra latina “pueri”, mencionada nos documentos antigos, teria sido mal traduzida, já que na Idade Média, ela era empregada para crianças e jovens. Como esperado, o desfecho dessa empreitada foi funesto. Muitas não conseguiram sequer chegar ao Mar Mediterrâneo, morreram de fome, exaustão e doenças durante a caminhada. Em contrapartida, aquelas que conseguiram embarcar, ou morreram afogadas durante a travessia marítima, ou foram vendidas como escravas, ao chegarem à Terra Santa. No final do século XIX, o francês Michel Schwob (1867 -1905) debruçou-se sobre essas informações para escrever uma pequena obra-prima que retrata a busca de um sentido para a vida mediante uma peregrinação que, privada de razão, foi guiada pela crença na misericórdia divina como recompensa terrena. Sem devoção nem cinismo, o escritor apresenta oito relatos fictícios que proporcionam uma perspectiva patética e até alucinatória para o assunto. O primeiro é de um goliardo que afirma ter visto essas crianças. O próximo é de um leproso que não só as viu, como conversou com um menino; já o Papa Inocêncio III, alarmado com os acontecimentos, clama pela piedade de Deus: “Não deixai que haja sob Inocêncio um novo massacre dos Inocentes”. Em seguida, entram em cena três pequenos cruzados que, assombrados por estranhas vozes, anunciam a esperança por dias melhores. Eles cedem o posto para um pragmático escrevente que planeja embarcar o quanto antes essa “horda de estrangeiros” para a Terra Santa. O sexto é um calândar (monge maometano) que afiança que a maior parte do grupo, ao desembarcar, foi comprada pelo Califa. Nele, está Allys, a guia de um menino cego que deseja como recompensa pelo seu sacrifício, poder enxergar O Senhor. Encerrando o ciclo, o Papa Gregório IX, sucessor de Inocêncio III, lamenta o que houve. Após implorar ao Mar Mediterrâneo que lhe devolva “suas crianças” e acusá-lo de “devorador”, ele o absolve e lhe suplica pela própria absolvição por erros que igualmente ignora. Por fim, o branco — associada à pureza no ocidente e ao luto no oriente — atavia a história. Schwob menciona abelhas brancas, dentes brancos, homens brancos, crianças brancas carregando cruzes brancas, ondas brancas, vozes brancas... Essa cor também orientou a criação da capa numa edição impecável, que mais uma vez comprova o cuidado da Editora 34 com suas publicações. Um cuidado que engloba as ilustrações de Fidel Sclavo, a irrepreensível tradução de Milton Hatoum e os extras: prólogo de Jorge Luis Borges, texto de orelha de Noemi Jaffe e boa biografia do escritor. Boa leitura! 👦 🌊 👧
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