Ler é um ato de resistência e a literatura é uma zona de transformação. Maria Andruetto, no conjunto dos artigos que compõe esse livro, demonstra com muita sabedoria o movimento contínuo do individual ao social que constitui os processos interligados de escrita e leitura.
Por muito tempo considerado um privilégio para poucos, o ato de ler esteve intimamente ligado a uma classe social. Nesse "direito à literatura", as elites negaram o acesso à leitura e obstacularizaram novos caminhos de conhecimento a um grande extrato da sociedade.
"Poder olhar-nos na trama do que nos precedeu e reconhecer nela aspectos próprios constrói nossa identidade e nos sustenta."
É a leitura que nos permite ter memória, que nos permite entender o cruzamento de forças e de lutas, dialogar com zonas refugiadas ainda invisíveis.
Nesse sentido, Andruetto nos aponta como as palavras tiram as coisas do esquecimento e as põem no tempo. Nessa dinâmica, a leitura se faz revolucionária, pois é através dela que somos capazes de alcançar o entendimento de que mesmo em nossos aspectos mais privados, fazemos todos parte de um passado comum de compartilhamento de signos e sentidos e que, portanto, não há futuro individual separado do futuro de todos.
Num país com aspectos muito complexos, que incluem tanto o desejo de integração, quanto o desejo de destruição do outro, só é possível dirimir as diferenças e abarcar acordos sociais que incluam todos quando percebermos que, mesmo afetados e atravessados de maneiras distintas por determinados fatos, não somos alheios ao mundo, mas fazemos parte do tecido social com nossas ideias, experiências e sentimentos.
"A confluência entre uma casa e o mundo, entre o íntimo e o público, permite ver, como na cena/umbral que os gregos criaram, de que modo as decisões, ações e omissões políticas, econômicas e sociais intervêm em nossas vidas [...] Compreender como o liberalismo, a ditadura, a guerra vão provocar um mal-estar em lugares insuspeitos de nossos mundos pessoais."