Sinceramente, não sei como começar essa resenha, então vou partir do ponto de partida mais fácil que consigo pensar:
"O Segredo do Kelpie" tem uma capa bonita que remete sonhos de infância, uma premissa simples que se transforma em algo muito maior do que o esperado e uma narrativa cativante, do tipo que não te obriga a nada, apenas te pede, gentilmente, que você não vá embora enquanto o fim não tiver chegado.
Talvez esse tenha sido o ponto que mais me tocou na obra de Aya Imaeda: a gentileza e cuidado com o qual narra a história, descreve os personagens, modelando-os com as palavras certas para torná-los importantes. Figuras que poderiam ser estereótipos planos, como os que povoam inúmeros livros de fantasia afora, nas mãos de Imaeda se tornam pessoas das quais não se pode deixar de gostar ou ao menos se importar - por mais que as "pessoas" em questão não sejam humanas.
Me surpreendi (e muito positivamente) com o livro, já que pela sinopse acreditei se tratar de algo mais sombrio. O que encontrei foi um conto de fadas com um pé na realidade, com seus kelpies, brownies e selkies - mesmo com toda a magia ao redor, os sofrimentos, alegrias e motivações dos personagens não deixavam de ser verossímeis e conquistar minha simpatia.
No geral prefiro livros mais sombrios, sobre pessoas sofridas e com finais tristes, porém "O Segredo do Kelpie" conquistou um lugar no meu coração com seu senso de humor suave e o desenvolvimento sem pressa, preocupado em dar voz não apenas ao protagonista kelpie, mas também à protagonista humana, mesmo quando não era a voz ativa narrando o capítulo.
A elaboração do conceito de se conhecer vários pontos de vista, o questionamento do que é bondade e maldade, a evolução visível de um protagonista não-humano que culmina em seu fim - tudo isso é algo emocionante de se ver, e em alguns momentos me vi chorando, o coração apertando pelo quão bem conhecia a sensação do kelpie de se sentir deslocado na realidade em que vivia, questionando a si próprio e sua natureza.
No mais, congratulo a autora pela sensibilidade com a qual tratou a questão do papel feminino dentro dos contos de fada, se importando em ir além do óbvio e criando uma das personagens mais fortes e carismáticas que tive a chance de conhecer num livro nacional.
E como a parte mais pessoal de toda essa resenha: dentre os mais de 30 livros que li esse ano, "O Segredo do Kelpie" foi aquele cuja companhia mais aqueceu meu coração gelado. =)