Após o nascimento de seu filho, uma mulher é diagnosticada com depressão nervosa temporária e leve tendência histérica; parte do tratamento é ficar confinada a um cômodo da casa. Diagnósticos e tratamento comuns à época, século XIX. A claustrofobia obviamente piora sua condição, fazendo com que entre em uma espiral de delírio e confusão mental. Se fosse hoje em dia, ela teria sido diagnosticada com depressão pós-parto e possuiria ao seu alcance uma gama de tratamentos. No entanto, muitas vezes a mulher na sociedade atual acaba encontrando uma situação semelhante à dela, com o isolamento encontrado nos meses de licença-maternidade e a falta de solidariedade e empatia de familiares e amigos, e até mesmo dos pais dos bebês, a essa situação que, mesmo quando não prejudicada pela depressão, gera uma montanha-russa de sentimentos e sensações — do amor à raiva, da alegria à frustração, da exaustão à enlevação. Além de ser uma obra literária magnífica, de autoria de Charlotte Perkins Gilman (1860-1935), o conto com traços de autobiografia também é importante para trazer à roda de discussão a depressão pós-parto, a depressão em geral e outros transtornos mentais, doenças tão comuns, porém, ainda envoltas pelas brumas do preconceito. Após ter um filho, a autora passou por um tratamento famoso à época que consistia em ficar o tempo todo em repouso na cama e depois manter uma vida totalmente doméstica, em companhia da criança e sem qualquer estímulo intelectual. Além do famoso conto, Gilman publicou livros feministas, dentre os quais os títulos Women and Economics [Mulheres e a economia] e His Religion and Hers [A religião dele e a dela]. Mulheres que estão no ou passaram pelo puerpério irão encontrar ressonância na história dessa mulher e todos os leitores ouvirão com atenção a voz dela clamando por ajuda.
O Papel de Parede Amarelo -
Charlotte Perkins Gilman
" A Loucura da Fragilidade"
O conto "O Papel de Parede Amarelo", escrito pela novelista, poetiza e ativista feminista, Charlotte Perkins Gilman, foi publicado pela primeira vez em 1892, é considerado um dos precursores da literatura feminista Norte Americana, e figura na lista de contos mais influentes da história. Escrito em primeira pessoa em forma de diário, Perkins, nos entrega um conto lacônico de terror psicológico com evidentes tons biográficos, que transmitem indignação e angustias, e evidencia o papel feminino dentro de uma relação matrimonial repleta de abusos e intensos conflitos, além dos conceitos sociais visivelmente retrógrados, inaugurados no fim do século XIX início do século XX. "Papel de Parede Amarelo", nos conta as inquietudes de uma mulher com a saúde mental debilitada, diagnosticada com depressão nervosa, que, na época era amplamente tratada como "histeria" feminina, e que, forçada pelo marido, (que também era seu médico) a se isolar em uma casa no campo, limita as atividades físicas e intelectuais da conjugue, privando-a até mesmo da rotina doméstica. Durante a "reclusão" em um quarto que possui um papel de parede que dá o título a obra, a mulher em visível estado confusional, escreve escondido do marido, um diário, e anota em suas folhas, todos seus devaneios e delírios, e principalmente sua obsessão pelo papel de parede infantil de cor amarela, o qual enxerga alucinações de todos os tipos, que a atormentam durante toda a narrativa. Repleto de simbolismos e ambiguidades, "O Papel de Parede Amarelo", é uma obra de cunho extremamente proselitista, que foi elaborado para colidir com as convenções sociais da época que impunham à mulher a submissão, e claro, a conduzir o leitor e a uma reflexão sobre as mazelas sociais, e também sobre a pouca atenção dedicada a saúde mental feminina no início do século no qual fora composto. "O Papel de Parede Amarelo" é uma prosa sociológica, de caráter feminista, repleto de sutilezas, onde a autora, com sucesso aborda o tema proposto, utilizando de subterfúgios que não deformam a estética ou o argumento, mas, que, em perfeita consonância, resultam em um texto de alta qualidade literária, sob medida, que chega a evocar em muitos momentos a escrita do mestre Edgar Allan Poe. Em suma, "O Papel de Parede Amarelo" é um texto sinestésico e sensorial, que brinca com o humor sarcástico, e que nos conduz a um mundo "cinza" repleto de delírios, e ilusões, e nos obriga a pensar, sobretudo a tentar enxergar o interior daqueles que sofrem e que são acometidos pelas privações da alegria e do prazer, que irremediavelmente leva até os mais sãos à loucura. Obs. Tenho obrigação de alertar que, o conto é repleto de gatilhos e aborda temas sensíveis, mas que estão em perfeita harmonia com aproposita da autora em conduzir o leitor a um labirinto insultuoso e a um final surpreendente.
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