“Não basta dizer não” é um livro que investiga a ascensão de Donald Trump à presidência dos EUA. Mais do que isso, é também uma análise dos fatores e do terreno que tornaram esse fenômeno possível, na expectativa de que ele não se repita no futuro, se fizermos o devido apelo para promover uma mobilização contra a ascensão da extrema-direita no futuro. Li esse livro em um momento muito oportuno, dias antes das eleições que podem nomear presidente da república ninguém menos que Jair Bolsonaro, um dos políticos mais ignorantes e retrógrados do planeta. Para a jornalista e escritora canadense Naomi Klein, a vitória eleitoral de Trump ocorreu em um período que ela denomina “política de choque”, em alusão à sua obra intitulada A Doutrina do Choque, período este que traz um nítido retrato da desilusão política da classe trabalhadora norte-americana. A política de choque é uma estratégia de fragilização e desarticulação da população, que sofre duros e sucessivos golpes num espaço de tempo relativamente curto, exatamente para impedi-la de entender o que está acontecendo no cenário político. Logo, as crises existentes são ou inventadas ou infladas com ódio, medo e distorções da realidade, gerando um terreno de incerteza e instabilidade para que as classes dominantes imponham medidas de austeridade que prejudiquem os pobres e maximizem o lucro dos ricos. Foi assim no Chile pós-golpe de Augusto Pinochet, o berço da experiência neoliberal, e também no Brasil, durante a sangrenta ditadura militar de 1964.
Os caminhos democráticos, as instituições públicas e todos os representantes eleitos caíram em descrédito graças ao fracasso do neoliberalismo selvagem que vigorou durante o governo do democrata Barack Obama. A retórica utilizada por Trump, além de preconceituosa e bastante agressiva, manipulou a indignação popular para fazê-la direcionar toda a sua fúria não para os verdadeiros responsáveis pela crise financeira de 2008, a elite de Wall Street e os políticos aliados a ela, mas aos negros, aos homossexuais e aos imigrantes igualmente prejudicados pela ganância do poder econômico. Foi por causa disso que grande parte das soluções extremistas ganhou notoriedade em nos países afetados pela crise neoliberal, muitas vezes exaltando lideranças com intenções assumidamente fascistas em meio à arena política. Naomi Klein nos alerta para um fato aterrador: em um dos momentos mais preocupantes da história da humanidade, que exige de todos os países uma mudança radical em seu modelo de consumo e de exploração dos recursos naturais, o presidente da nação mais poderosa do planeta é também um negacionista da ciência das mudanças climáticas e do aquecimento global, a ponto de censurar cientistas que divulgam estudos contrários aos interesses escusos do governo.
O interessante da análise de Klein é que ela investiga o crescimento de Trump de uma maneira que eu ainda não havia cogitado. Klein escreveu o livro Sem Logo, uma espécie de denúncia contra o império das marcas no mundo do consumo, cujas empresas e acionistas, muitas delas mundialmente famosas, como a Nike, submetiam os trabalhadores das fábricas a jornadas de trabalho exaustivas, em ambientes totalmente insalubres e recebendo salários injustos, que mal lhes permitiam sobreviver com dignidade. É sob essa perspectiva que ela descreve a figura de Donald Trump: como uma pessoa e uma marca. Não é em vão que Trump estampou seu próprio nome em todas as suas propriedades comerciais. Por ser um magnata do setor imobiliário, sua imagem pública de presidente representa, acima de tudo, uma propaganda de seus negócios privados, de modo que sua estratégia política consiste unicamente em ser primeira página de todos os jornais importantes do mundo. Assim ele divulga não a si mesmo, mas ao seu negócio, a fim de torná-lo mais e mais lucrativo.
Essa é apenas uma das várias facetas de Trump que a autora, de maneira resumida e direta, consegue revelar. Revelar e, é claro, destruir. Afinal, Trump é uma marca, um logotipo, um personagem. Se ele tenta encenar o papel de chefe, de empreendedor bem-sucedido com poder de tripudiar sobre os perdedores, uma tática de humilhá-lo, segundo Klein, é demonstrando exatamente o oposto, ou seja, a de que ele não passa de uma verdadeira marionete. Isso é bem familiar para os brasileiros de hoje. Se tomarmos Jair Bolsonaro como exemplo, veremos que ele se apresenta como um machão, um capitão do exército treinado para curar a homossexualidade e matar delinquentes. Como desmoralizá-lo? Ora, simplesmente mostrando que, há poucos anos ele foi surpreendido e abordado por dois assaltantes em sua própria cidade, Rio de Janeiro, que ainda roubaram sua arma de fogo, símbolo de sua de sua repugnante campanha eleitoral, deixando-o impotente, frágil e indefeso, exatamente o contrário de sua pose forjada de militar valentão.
Lições como essa podem ser facilmente extraída do livro, pois, por mais diferente que os norte-americanos sejam dos brasileiros, existem semelhanças impossíveis de serem ignoradas. Por fim, o título “Não basta dizer não” cumpre um propósito quase que autossugestivo, pois vem acompanhado de um forte apelo ao “sim”, mas um sim que, de acordo com a autora, sinaliza para os caminhos da esperança e da luta em prol de um mundo melhor.