Ambas as apologias de Justino são muito fáceis de serem lidas. Justino escreve de modo claro, sem muitos floreios linguísticos. O que chama bastante a atenção é a ousadia com que ele fala aos imperadores romanos. Uma ousadia semelhante àquela com que João Batista falou a Herodes sobre Herodias. Ele basicamente pedia a liberdade de crença, mostrando que o cristianismo não apresentava nenhuma ideia nova que já não houvesse sido aventada por algum filósofo ou astrônomo grego (ressurreição, eternidade, alma, castigo divino, etc.).
Já no diálogo com Trifão, Justino se mostra um pouco prolixo. Ao longo do texto, ele repete vários pensamentos e interpretações de passagens já explicadas anteriormente. Tudo bem que ele apresenta uma mea-culpa, alegando que o faz para que os ouvintes do segundo dia (o diálogo ocorre em dois dias) possam saber o que foi dito no primeiro. Mas, mesmo assim, ele podia ter sintetizado mais os assuntos. Ele interpreta várias passagens do AT, que eu não tinha me atentado, como sendo cristológicas. Ele até faz uns estudos exegéticos da tradução do pentateuco para o grego coiné feita para a biblioteca de Ptolomeu II.
Os livros mostram que Justino era milenista e acreditava simultaneamente no livre-arbítrio e na soberania divina, embora ele não tenha tratado desse paradoxo que até hoje causa dúvidas.
Em resumo, é um bom livro. A leitura é fluida nas duas partes iniciais, mas se torna um pouco prolixa na terceira parte. Mas, vale a leitura.
Infelizmente, como a história mostra, as apologias não surtiram o efeito desejado e Justino acabou sendo martirizado pelos romanos no ano 165 da presente era.