Quando eu vi o lançamento desse quadrinho fiquei bem empolgada, porque esse é um tema super importante e já tinha ouvido falar muito bem da autora. Anne-Charlotte Gauthier é ilustradora e também publicou pela Nemo “O Enterro das Minhas Ex”.
O traço é simples, despojado, com características bem fortes que marcam o trabalho da autora, como a formato do nariz dos personagens. Toda a história é apresentada em preto e branco, abrindo mão das cores com artifício.
Falar sobre identidade de gênero é algo muito importante no contexto atual de debate sobre aceitação que estamos vivendo. Há anos isso vem sido estudado e compreendido e aos poucos vamos compreendendo que não é porque você nasceu com um sexo que seja obrigado a se fixar nele caso não sinta que seja esse seu real gênero.
“Só que o peso da família e da sociedade me impediu de aceitar que eu era realmente.”
Muito se discute em casos de crianças que começam desde cedo a falar sobre essa falta de identidade e, muito se julga também, os pais que dão voz a esse clamor apoiando a decisão da mudança de sexo. Justine, porém, não teve essa compreensão.
Mesmo que desde muito nova falasse sobre o assunto, nunca foi ouvida, e sua mão deixava bem claro que ela precisava parar de agir daquela forma. Após alguns anos, quando resolveu procurar profissionais, demorou muito tempo até encontrar um que compreendesse e aceitasse suas inclinações sem sugerir absurdos como tratamentos de choque. Infelizmente, mesmo tendo se passado alguns anos, essa é ainda uma realidade existente. A questão é que a ciência já provou que isso é algo real e mesmo assim os profissionais mais mente fechada seguem por renegar, junto com a sociedade, em busca da manutenção dos “padrões.
Porém, mesmo tratando de uma temática super relevante, achei o quadrinho extremamente superficial. Há bem pouco envolvimento emocional e a autora apenas pincela momentos isolados, mostrando muito pouco sobre as emoções, pensamentos e questões que envolvem a situação. Pula-se de um ponto a outro sem elo de ligação, fazendo com que a história soe na verdade como tópicos em um passo a passo, do que realmente jornada de alguém. Confesso que isso frustrou consideravelmente as expectativas que eu tinha.
Então, mesmo que a leitura valha a pena pelo assunto e por conhecermos um pouco mais sobre a questão, acho que vale a pena ter essa questão em mente para não se decepcionar esperando algo que não vai ser tão trabalhado a fundo.