Sem querer ser pessimista - e até mesmo torço para estar errado -, mas acredito que esse será o melhor livro da carreira de Gonzales. Digo isso já tendo lido outro livro dela que gostei bastante há uns anos. É só que, em sua estreia, existe uma energia ainda não domada, uma estrutura que não está polida demais, que não tenta ser necessariamente palatável para um público mais amplo. É um desses romances de formação com protagonismo queer que dá gosto de descobrir; sem pretensão de ser algo grandioso, e ainda assim com o coração no lugar certo para capturar nuances e fazer o cotidiano brilhar.
A história aqui lida com questões relacionadas à saúde mental de uma forma sincera e responsável, sem colocar muitos panos quentes, só que também sem usar apenas para valor de choque. Achei que a vertente do suspense, que em grande parte serve de pano de fundo, acabaria caindo por terra ou então traindo a própria história que estava sendo criada. Porém a autora me surpreendeu ao fazer o drama e suspense funcionarem juntos e de forma complementar, sem um ser apenas artifício para o outro, por mais que uma coisa aqui ou outra ali ainda não feche tão bem.
SPOILERS adiante porque quero registrar minhas impressões de forma clara.
Por exemplo: precisava MESMO cortar o contato com o James em definitivo? Ou não deixá-lo ciente pelo menos?
Entendo do que ocorreu no impulso num primeiro momento, até mesmo o instinto meio de vingança de Ash, e que quanto mais tempo passava, mais difícil seria de falar a verdade. Tipo, não é sem lógica alguma, mas também senti que a autora forçou um pouco a barra para as coisas funcionarem dentro do que ela precisava. O que eu perdoo porque o todo funcionou.
Agora o pior de tudo pra mim foi Louise. Que, convenhamos, é uma personagem que só existe pra ser ferramenta narrativa para explorar o aspecto do mistério. Porque é claro que um pov do "Elliot" arruinaria tudo. Mas ela só está lá pra ser a melhor amiga que, na verdade é a pior amiga que eu li nesses últimos tempos. Ela vai atrás de desvendar o segredo do seu melhor amigo como se tivesse o direito de saber tudo da vida dele, mesmo ele pedindo pra ela deixar o assunto de lado. Zero respeito, zero empatia, zero lealdade. Felizmente tudo funciona no final e ela mesmo acaba se caindo em si que o melhor amigo dela não estava errado em fazer o que fez, diferentemente do que ELA fez que não me desce. O bom é que ela realmente não tem qualquer função que não seja nos guiar no momento presente, então aparece pouco. O triste é que isso só enfatiza o quanto que ela não é uma personagem, mas sim um meio para um fim.