Se algum membro votante da Academia Sueca que anualmente confere o Nobel de Literatura a um escritor ou poeta tiver lido o livro de Jacques Fux, então o Brasil jamais ganhará esse cobiçado troféu das letras universais. Sério, porque as ofensas, ironias, o sarcasmo e a malícia empregados nas referências à instituição e seus membros e a vários premiados são incontáveis. Por muito menos, quase nada, o grande Philip Roth deixou de receber o galardão da Academia Sueca, ele que para muitos seria merecedor inconteste da honraria. Que também jamais foi ofertada a Jorge Luis Borges. Mas aí são outras histórias, várias, desfiadas pelo talentoso autor mineiro.
E tudo começa com Fux, nessa bem-humorada autoficção, atribuindo-se, mas como se tivesse sido a Academia Sueca ela mesma, o Nobel de Literatura. Que ele teria merecido Por ter performado, falsificado e duplicado a narrativa dos escritores canônicos, transformando-a em sua perturbada obra. Pois é isso mesmo que ele faz ao longo de seu longo discurso dirigido aos membros da Academia. Ele diz que Após anos de escolhas polêmicas, algumas vezes equivocadas e até vergonhosas, finalmente os nobres cavalheiros se redimiram e tomaram uma decisão acertada. Caríssimos, o vosso dever foi cumprido. Parabéns. Eu, sem dúvida alguma, sou merecedor incontestável desta premiação. Modéstia parece não ser um componente da personalidade do novo premiado...
A história, ou melhor, o discurso, prossegue nessa toada e várias páginas ou parágrafos são dedicadas a alguns notáveis escritores que, feito os citados Roth e Borges, jamais foram laureados pela Academia como Kafka, Mishima, Nabokov, Ionesco etc. O que torna o livro engraçado nesses casos e nos outros, dos escritores premiados, é que Fux vai enumerando dados verídicos, assim como fatos e episódios ocorridos com esses autores, com outros dados inventados ou distorcidos por ele mesmo, tomando como base as obras com as quais os autores foram premiados. Fux inventa, distorce e acrescenta, digamos assim.
E isso faz de Nobel um livro bastante engraçado, cativante, tanto quanto as outras obras dele que li nos últimos anos, que acabam todas, de um modo ou de outro, interligadas pela cultura judaica. Refiro-me a Antiterapias (Scriptum, 2012), Brochadas (Rocco, 2015), Meshugá, um romance sobre a loucura (José Olympio, 2016), tornando-o um escritor bastante diferenciado de nossas letras, algumas vezes um tanto sisudas e ou dramáticas demais. Impossível não achar graça quando Fux conta (ou ainda o modo como ele faz isso) os podres de alguns medalhões nobelizados como o pitoresco episódio do rompimento da amizade entre os antes grande amigos Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa, motivado pelo envolvimento da mulher de um deles.
Não bastasse esse episódio com os dois grandes representantes do realismo fantástico latino-americano, Fux nos presenteia ainda com uma história francesa, melhor, traz como personagens autores franceses conhecidíssimos, como o casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, lembrando que o autor de O Muro causou polêmica ao recusar o prêmio em 1964. Que depois passou a ser concedido apenas aos autores que fizessem o discurso de aceitação, então fazendo jus à honraria e ao prêmio em dinheiro, algo em torno de 1 milhão de dólares atualmente.
Finda a leitura de Nobel, de Jacques Fux, fica a certeza de que se a Academia Sueca (e seu sistema de premiação) já não era mais aquela há algum tempo, depois deste discurso, deixou de ser ela ainda um pouco mais...
Lido entre 31 de outubro e 01 de novembro de 2024.