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    O Som da Montanha - Trilogia dos sentimentos #3

    Yasunari Kawabata

    Estação Liberdade
    2009
    344 páginas
    11h 28m
    ISBN-13: 9788574481579
    Português Brasileiro
    4.1
    199 avaliações
    Leram301Lendo23Querem651Relendo0Abandonos4Resenhas24
    Favoritos32Desejados651Avaliaram199

    A cada dia Shingo Ogata trava novos confrontos com a memória que desvanesce. Preocupado com a decadência moral de seus descendentes, divide-se entre a difícil função de chefe de família e o clamor da beleza que o traga a todo instante para paisagens que estão além de seu convívio com os homens. Parte da chamada “trilogia dos sentimentos humanos”, ao lado de O país das neves (Estação Liberdade, 2004) e Mil tsurus (Estação Liberdade, 2006), a presente obra constitui um exercício estilístico de rara felicidade: resultado da busca de vida inteira pela depuração total da arte romanesca, a simplicidade do narrar aqui se apresenta plena, suave, homogênea. Kawabata maneja com habilidade seus personagens em meio ao delicado tecido dramático. Com a sutileza que lhe é peculiar, faz brotarem da narrativa os demônios pessoais que a rigidez da família japonesa não é capaz de conter em uma era de incertezas, abalada pela crise de identidade que sobreveio à Segunda Guerra Mundial. Shingo Ogata, representante de uma geração que se despede, luta para fazer valer sua autoridade e a sabedoria da tradição, mas é incessantemente capturado por flores, cantos de pássaros, e mais amiúde pela beleza e delicadeza da jovem nora, Kikuko. Apresentando os primeiros laivos de senilidade, Ogata já não está totalmente presente. Sua existência lírica anuvia sua vida prática. Mais uma obra magistral do Prêmio Nobel Yasunari Kawabata: em O som da montanha dançam, de mãos dadas a uma observação arguta da moderna sociedade japonesa, reflexões sobre vida e morte (em especial sobre a possibilidade do suicídio, ao qual se entregaria o próprio autor em 1972), momentos de profundo lirismo contemplativo e a beleza suave do erotismo na velhice. Aos fundos da casa, a vista para a montanha, cujas mensagens Shingo Ogata vai aos poucos se tornando capaz de decifrar.

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    Daniele picture
    Daniele30/11/2022Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O som (perturbador) da montanha

    "Com que idade Shingo teria começado a se sentir solitário ao acordar no escuro nas manhãs de inverno?" Essa foi uma das leituras mais difíceis do ano. Embora a escrita seja fluida, o conteúdo é bastante denso devido a camadas e mais camadas de exploração psicológica que formam a essência do enredo. De modo perturbador e desconfortável, o autor explora temas como velhice, memória, arrependimentos e a dualidade entre a vida familiar e a vida em sociedade. Tenho até dificuldade de descrever objetivamente do que se trata o livro, além de ser o recorte de uma trama familiar que se passa no Japão pós-guerra. O enredo não segue uma sequência óbvia, quase ignorando os conceitos de começo, meio e fim. A sensação que tive ao longo da leitura é de estar olhando para o céu, acompanhando o passar das nuvens enquanto mudam de forma até se dissolverem completamente. O que posso dizer é que a sensação de entrar na mente dos personagens foi uma experiência perturbadora, como se estivesse passeando em um território proibido. E no fim das contas, ainda não sabemos nada, ou quase nada sobre eles. Verdadeiros enigmas. Como pano de fundo, Kawabata apresenta um Japão em plena fase de transição, passando por um malabarismo coletivo. Vemos uma nação que se agarra às tradições, ao mesmo tempo em que recebe uma enxurrada de influências externas. Esse é um tema recorrente na obra do autor. Outro tópico presente aqui, em momentos e discussões centrais para a trama, é o lugar e a identidade da mulher em uma sociedade em transformação. Ele também não deixa de fora o "legado" sutil e doloroso da guerra, ora na forma de danos emocionais que atrapalham as relações interpessoais, ora na desconfortável presença dos soldados americanos ocupando espaços do cotidiano. Um último ponto que não posso deixar de mencionar é a belíssima representação ciclos da natureza e suas simbologias. Kawabata é mestre em incorporar esses elementos em suas narrativas. Por fim, confesso que o final do livro me pegou de surpresa. Por que o autor fez essa escolha? Ao mesmo tempo, por que não?

    38 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.1 / 199
    • 5 estrelas36%
    • 4 estrelas37%
    • 3 estrelas20%
    • 2 estrelas6%
    • 1 estrelas1%
    Yasunari Kawabata profile picture

    Yasunari Kawabata

    Prêmio Nobel de 1968, Yasunari Kawabata é considerado um dos representantes máximos da literatura japonesa do século XX. Nascido em Osaka em 1899, interessou-se por livros ainda adolescente, principalmente clássicos do Japão, que viriam a ser uma de suas grandes inspirações. Kawabata estudou literatura na Universidade Imperial de Tóquio e foi um dos fundadores da Bungei Jidai, revista literária influenciada pelo movimento modernista ocidental, em particular o surrealismo francês. Acompanhado de jovens escritores, defenderia mais tarde os ideais dacorrente neo-sensorialista (shinkankakuha), que visava uma revolução nas letras japonesas e uma nova estética literária, deixando de lado o realismo em voga no Japão em prol de uma escrita lírica, impressionista, atravessada por imagens nada convencionais. Ao contrastar o ritmo harmônico da natureza e o turbilhão da avalanche sensorial, Kawabata forjou insólitas associações e metáforas táteis, visuais e auditivas que surpreendem por revelar os processos de fragilização do ser humano diante do cotidiano, numa composição surrealista de elementos da cultura e filosofia orientais, personagens acuados e cenários inóspitos. Sua obsessão pelo mundo feminino, sexualidade humana e o tema da morte (presente em sua vida desde cedo, sob a forma da perda sucessiva de todos seus familiares) renderam-lhe antológicas descrições de encontros sensuais, com toques de fantasia, rememoração, inefabilidade do desejo e tragédia pessoal. Desgastado por excesso de compromissos, doente e deprimido, Kawabata suicidou-se em 1972.

    38 Livros
    234 Seguidores
    Kinki, Japão

    Yasunari Kawabata