Os demônios do desconhecido
Olha, que satisfação é ler Gabriel García Márquez. Este "Do amor e outros demônios" é o terceiro livro que termino do Nobel colombiano, o segundo em 2020, e mais uma vez fui surpreendido. É difícil imaginar um escritor que tenha entendido tão bem como traduzir o espírito latino-americano. Neste livro, Gabo apresenta um sincretismo em vários níveis: cultural, religioso e social. O leitor se depara com uma realidade que, apesar de se passar no período colonial, produz ecos até hoje. Gabo não deixa nada gratuito no livro, pois sabe que encontraremos em suas personagens exemplos daqueles que construíram a América, principalmente a latina. É também o primeiro livro em que percebo uma prevalência da ironia na narrativa, seja quando trata dos núcleos da Igreja, seja nas relações que perpassam a vida de Sierva María ou ainda nos descasos e peripécias do marquês e de sua esposa. Dentro do livro todos possuem seus próprios demônios e é através deles que Gabo apresenta um pedido ao leitor, com um detalhe que apenas latinos podem entender: lute você também contra os demônios, tanto os do passado quanto os do presente. É um livro carregado de significados metafóricos, principalmente sobre a ignorância europeia perante o desconhecido de suas colônias. Por essa razão, permito-me acreditar que Sierva María, que acompanhamos da primeira à última página, é uma metáfora da América Latina: ela detém o melhor das culturas e, por não ser entendida, é hostilizada, foi tomada pelo diabo. Grande obra e merece nossa atenção.





