Demorei um longo tempo para ler The Politics of Myth, e me arrependo amargamente! Este livro é uma introdução seminal a todos que queiram ter um olhar político dos maiores representes da escola romântica do mito: Jung, Eliade e Campbell. Na medida em que estes pensadores constituem ainda hoje hegemonia no campo dos estudos mitológicos, e influenciam até mesmo cultura pop - especialmente no caso de Campbell - um livro que se propõe a rastrear suas filosofias políticas e situa-los historicamente é fundamental para combater o olhar acrítico que o grande público lhes lançou por tanto tempo.
Robert Ellwood, ele mesmo um aluno de Mircea Eliade na Universidade de Chicago, traça as raízes românticas desses pensadores, bem como de suas teorias do mito, que, basicamente, postulam a verdade universal do mito e o seu poder curativo para o mundo moderno, globalizado, tecnicista. A grande questão do livro é de que maneira o passado de cada um dos mitólogos seja com o anti-semitismo, o chauvinismo, fascismo ou o nazismo se articula com sua vida intelectual e seus esforços acadêmicos sobre 'o poder do mito'.
A impressão que tive é que Ellwood cuidadosamente anda pelo caminho do meio entre aqueles que acusam estes mitólogos de reacionários, como S. M. Wasserstrom, e aqueles que alegam que suas teorias são muito difusas para classifica-las cabalmente em um corpus político, como R. A. Segal a respeito de Jung.
O calcanhar de Aquiles do livro fica por conta da opção do autor, desde o princípio, se meter ele mesmo a adotar uma definição de mito, sem fundamentações, e, ainda por cima, a definição de mito ser exatamente a dos acadêmicos analisados! Entendo o caráter pessoalista dessa decisão, seguida por outras, como relatos da vida pessoal de Ellwood com Eliade no campus, etc., e algumas afirmações em primeira pessoa, de caráter ensaísta. Mas ela leva a uma ambivalência que não se resolve ao final. O capítulo de conclusão, "the myth of myth", dá espoiler de um final que não ocorre na prática: embora afirme que a visão romântica e universalista de mito dos autores seja ela própria um mito, ancorada e cozinhada nos caldeirões históricos de suas biografias, de seu tempo e de suas nações, Ellwood reafirma a universalidade dos mitos anyway.
Anyway, é um excelente livro de contextualização política dos maiores expoentes da mitologia do século XX, e certamente, vale apena a leitura a quem interessar essas pirações!