Mundafora em 198 livros #23: São Cristóvão e Névis
Em Only God Can Make a Tree, de Bertram Roach, acompanhamos a trajetória de Adrian, um homem dividido entre o amor e a ambição, entre a vida simples de sua ilha e a promessa de ascensão financeira. A história começa com força, uma juventude vibrante e sonhadora, um trio de personagens: Adrian e seu dilema entre o amor de Julia, a jovem professora e negra, e as conexões de Alice, a filha branca do patrão que é apaixonada por ele. Há algo de profundamente simbólico no que Roach faz: ele transforma a história de Adrian num espelho da própria São Cristóvão e Neves — sorteado da semana no desafio Mundafora —, un país pequeno,dividido entre o peso de seu passado colonial e o desejo de construir um futuro independente.
São Cristóvão e Neves, ou Saint Kitts and Nevis, como é conhecida em inglês, é o menor país do continente americano, um conjunto de duas ilhas caribenhas que, vistas no mapa, parecem dois grãos de terra cercados por um azul imenso. Foi ali que começou a colonização britânica no Caribe: em 1623, os ingleses se instalaram em São Cristóvão, expulsando e dizimando os povos indígenas caribes e trazendo milhares de africanos escravizados para o cultivo da cana-de-açúcar. A economia da ilha, como em tantos outros territórios caribenhos, ergueu-se sobre a violência da plantação, sobre o açúcar e o sangue. Mesmo depois da abolição da escravidão, as estruturas coloniais se mantiveram por meio da desigualdade e da dependência econômica — que fica bem claro no livro. O país só alcançou sua independência em 1983, o que significa que as marcas do domínio britânico ainda são recentes, não apenas na política, mas na língua, na religião, nos costumes e, principalmente, na literatura.
Nesse contexto, o livro de Bertram Roach ganha uma dimensão simbólica: a luta de Adrian não é apenas pessoal, é também histórica. Adrian vive a tensão entre dois mundos: o da pureza e das raízes (representado pelo amor de Julia, pela terra e pelas relações humanas) e o da ambição e do dinheiro (pelo amor não correspondido por ele através de Alice que promete liberdade, mas cobra caro em solidão e perda). A árvore do título, evocando o verso “Only God can make a tree”, do poeta americano Joyce Kilmer, é mais do que um símbolo religioso: ela é a metáfora da criação e do destino, algo que o homem tenta dominar, mas que pertence a forças maiores.
Roach escreve em uma linguagem marcada pela musicalidade caribenha, com diálogos vivos e um senso de oralidade que dá ritmo às cenas. Na primeira parte do livro, esse estilo se sobressai: há calor, cor, humor, e o leitor sente que está dentro da comunidade, compartilhando os gestos e os silêncios de um povo acostumado a resistir. O trio inicial, Adrian, Julia e Alice, concentra a força emocional da narrativa, trazendo um retrato autêntico do cotidiano de uma ilha onde todos se conhecem e onde as escolhas individuais repercutem no coletivo. É um início promissor, que fala sobre juventude, lealdade e desejo, sobre o ponto em que a vida ainda é uma promessa.
Mas, à medida que a trama avança, o ritmo se perde um pouco. O conflito de Adrian, entre o amor e o dinheiro, acelera de forma abrupta, e o que poderia ser uma jornada de autoconhecimento se transforma numa sequência rápida de eventos. O leitor, que havia se conectado ao início luminoso da história, sente uma distância crescente dos personagens que vão entrando e saindo da trama. Ainda assim, essa aceleração pode ser lida também como um reflexo da própria modernidade que o livro critica: o tempo apressado das novas economias, o abandono das raízes em nome do progresso.
No país, a literatura ainda é um território em formação, com poucos nomes reconhecidos internacionalmente, e Bertram Roach é uma das vozes que tenta traduzir, por meio da ficção, o dilema de pertencer a um lugar que sempre foi narrado pelos outros.
Em Only God Can Make a Tree, há uma tentativa clara de devolver voz à ilha. O ambiente natural, o ritmo das conversas, as relações comunitárias e a presença constante da religião formam o pano de fundo de uma sociedade que vive entre a fé e a necessidade. A própria estrutura da narrativa com variações de tom e foco, parece dialogar com a história das ilhas: a inocência colonial, a ruptura com a ordem antiga, e a busca incerta por um novo caminho.
Ao mesmo tempo, há algo de universal na trajetória de Adrian. Seu dilema entre amor e dinheiro ecoa o dilema de muitos povos colonizados que, ao alcançar a independência, precisam escolher entre seguir seus próprios valores ou se render às forças econômicas globais. O amor, nesse sentido, representa o vínculo com a terra, a comunidade, a memória; o dinheiro, o desejo de ascensão e a sedução do poder. A tragédia de Adrian é a tragédia das pequenas nações, a perda de si mesmas na tentativa de serem vistas pelo mundo.
A árvore, símbolo central, retorna como uma imagem de enraizamento e transcendência. Em uma das passagens mais belas do livro, Clifford, filho de Adrian, reflete que o homem pode plantar, regar, podar, mas não pode criar a vida que pulsa em cada folha. Só Deus pode fazer uma árvore. É uma frase que carrega o peso da humildade diante da criação, mas também a impotência de quem percebe os limites de sua própria ação. A metáfora se amplia: talvez São Cristóvão e Neves esteja tentando fazer crescer sua própria árvore, sua identidade, em um solo ainda marcado pelas raízes coloniais.
Há, no estilo de Roach, um desejo de capturar a fala cotidiana, o ritmo da ilha e sua espiritualidade. Isso o aproxima de outros autores caribenhos que buscaram romper com o inglês formal e dar à literatura a voz do povo. No entanto, a segunda metade do livro parece perder parte dessa organicidade. O narrador se distancia, as descrições se tornam mais econômicas, e os personagens deixam de se aprofundar. A força emocional inicial, que prometia uma história de amor e perda com densidade poética, se dilui com o desenvolvimento diferente do imaginado, com o filho de Clifford. As personagens femininas perdem também densidade, existindo apenas para bagunçar o destino de Adrian.
Ainda assim, há valor no conjunto. O livro nos oferece um retrato raro de São Cristóvão e Neves, um país de pouco mais de 50 mil habitantes, que raramente aparece na literatura mundial. Ler Only God Can Make a Tree é, portanto, mais do que acompanhar o destino de Adrian e Clifford: é abrir uma janela para um lugar onde as montanhas descem até o mar, onde o passado escravocrata ainda ecoa nas canções, e onde cada pessoa carrega dentro de si um pedaço da história atlântica.
Bertram Roach nos lembra que as pequenas ilhas também produzem grandes dilemas, e que as escolhas de um homem, amar, enriquecer, partir, voltar, podem conter a complexidade de uma nação inteira. Mesmo que o livro não alcance toda a profundidade que sugere no início, ele cumpre um papel essencial: o de revelar São Cristóvão e Neves não como um ponto esquecido no mapa, mas como um território vivo, cheio de memórias e contradições.
Only God Can Make a Tree de Bertram Roach. Twickenham: Athena Press, 2008. 149p. Leitura de Outubro 2025.