Para não morrer de silêncio
Por sincronicidade, terminei a leitura de A Leste dos Homens no mesmo dia em que tomei conhecimento do prêmio literário que homenageia o escritor e poeta Políbio Alves (https://www.joaopessoa.pb.gov.br/noticias/prefeitura-abre-inscricoes-para-premio-literario-que-homenageia-polibio-alves/). Homenagem mais que merecida a esse artista tão inquieto e inquietante, que ainda ousa fazer da Literatura um jeito de bulir na alma da gente. Esse, aliás, é o terceiro livro que leio do autor, o que já me faz merecedor de uma vaga no Fã Clube Políbio Alves! O primeiro foi o espetacular livro de contos Os Ratos Amestrados Fazem Acrobacias ao Amanhecer (https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2020/02/os-ratos-amestrados-fazem-acrobacias-ao.html), que me pegou completamente de surpresa com sua semiótica agreste e hermética, tal qual um mandacaru selvagem que inesperadamente nos brinda com uma bela flor. Em seguida li Acendedor de Relâmpagos (https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2020/05/acendedor-de-relampagos-polibio-alves.html), livro de poemas afiados e cortantes como uma faca só lâmina. Por isso é que me aproximei de A Leste dos Homens com a cautela de um capoeirista que adentra uma terra alheia, que promete inúmeros perigos. Não à toa, pois eu já sabia que o livro contém relatos das atrocidades cometidas durante a ditadura militar em nosso país. Relatos ainda mais veementes por ter sido o próprio Políbio preso e torturado em 1968, logo após a passeata dos 100 mil, por ter se indignado com o assassinato de seu colega, o estudante Edson Luís, assassinado com um tiro no coração no restaurante Calabouço. É certo que minha apreensão (e curiosidade) só fez aumentar ao ler as palavras de advertência com as quais o autor me brindou (e honrou), junto com o seu autógrafo: Fabio Shiva, querido escritor, aqui dentro tem (há) coisas inimagináveis. Logo em seguida, em letras impressas, novo aviso reforça a impressão de estarmos adentrando um inferno literário: Não leia essa escrita. Ela incomoda. E muito. Por favor, não me pergunte sobre esse livro. Enunciá-lo, nunca. Que posso dizer sobre essa leitura? Coisa mais difícil é tentar fazer um texto de Políbio Alves caber em rótulos. Melhor deixar que o próprio autor diga a que veio sua obra: Escrevo para não morrer de silêncio. E é quanto basta. Se quiser saber mais, atreva-se também a ler A Leste dos Homens. https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2021/03/a-leste-dos-homens-polibio-alves.html
