Ambientada no Rio de Janeiro dos anos 90, a história contada em Memória da Pedra, romance de estreia do diplomata Mauricio Lyrio, trata do deslocamento. E dos afetos. E de política. E do debate Livre Arbítrio vs. Determinismo. E da morte.
O professor Eduardo, órfão desde a infância e vítima da síndrome de Kartagener, vive impassível o turbulento momento da cena política brasileira da época e acompanha sem interesse as manifestações populares pedindo a queda do então presidente Fernando Collor de Melo. Protegido por sua confortável situação pessoal e profissional (estava casado havia anos com a artista Laura e gozava de um emprego estável numa universidade), Eduardo parece não sentir nenhum respingo da convulsão social do período.
No entanto, o imponderável acaso abala suas estruturas e um pedido de esmola lhe apresenta Romário – um garoto de rua capaz de avivar o espírito paternal do professor e tirá-lo do casulo em que vive.
Um porém. Apesar de diversas cenas líricas percorrerem o texto (há muitas daquelas frases que poderíamos chamar de sublinháveis), em vários trechos o romance parece fraquejar: muitos dos momentos que nos mostram a relação entre Eduardo e Romário, principalmente, beiram a inverossimilhança e soam artificiais.
Trecho do livro:
“O menino sentou-se ao fundo, entre uma aluna que escrevia no caderno, com os cabelos ruivos descendo sobre a caneta e o rosto, e dois rapazes que compartilhavam uma revista. Eram quase vinte alunos, dispersos na sala de formato quadrado, iluminada por dois janelões verticais. Ninguém parecia estranhar sua presença. Um ou outro o olhava, sem maior curiosidade. Eduardo escrevia algumas palavras no quadro.” (p. 63)