Infelizmente, inúmeros quadrinhos de ótima qualidade foram eclipsados nas décadas de 1980 e 1990 pelo sucesso estrondoso de obras como "Monstro do Pântano", "Watchmen" e "V de Vingança", de Alan Moore, "Batman: O Cavaleiro das Trevas", de Frank Miller e "Sandman", de Neil Gaiman. O triunvirato monopolizou praticamente toda atenção da mídia especializada e dos fãs num dos períodos mais prolíferos da história das HQs. Acontece que o lado "negativo" de tanta fama é a falta de atenção que outros artistas recebem, e foi exatamente o que ocorreu com Pat Mills e Kevin O'Neill, em “Marshal Law”. Juntos, a dupla desenvolveu uma das críticas mais contundentes contra a própria indústria mainstrem, num gibi mainstrem. Ou seja, usaram o espaço dos super-heróis para atacar tudo de tóxico que eles representam.
Joe Gilmore (alter ego de Marshal Law) é um ex-combatente da Zona (área fictícia na América do Sul, local onde ocorreu uma guerra). Ele - como muitos jovens inebriados pelas palavras da então maior figura midiática dos EUA, o super-herói Espírito Público -decide se alistar para o conflito bélico, e através de uma transformação genética em laboratório ganha superpoderes para ser uma máquina de guerrear. Com poderes e corpos modificados, os confrontos tomaram proporções inimagináveis; os horrores vivenciados pelos jovens, outrora seduzidos pela campanha e discursos ufanistas estadunidenses, são intensos e devastadores, causando danos físicos e mentais irreparáveis.
Após o término da conflagração, o governo estadunidense nega auxílio e amparo aos ex-militares, com grande parte dos sobreviventes acometidos por distúrbios e problemas de natureza física e psicológica. O cenário é agravado por comportamentos intempestivos e desequilibrados que esses super-humanos possuem, causando transtornos para a sociedade. As autoridades de São Francisco (local em que a história se passa) optam por trabalhar em colaboração com Marshal Law, que tem seu ódio e senso de justiça chancelados.
A trama principal gira em torno de Marshal Law vs Espírito Público, e grandes momentos de bastidores com um jogo político complexo evidenciam que Law é apenas um fantoche do Estado. A forma como o Espírito Público utiliza palavras como fé, esperança e, principalmente, patriotismo simbolizam toda toxidade envolta nos valores dos supers, e, do mesmo modo, as ações do policial justiceiro também representam essa faceta tóxica. Pat não poupa críticas a ninguém, expõe a cadeia lógica da produção fascistóide nos quadrinhos: Dos super-heróis aos anti-heóis, fica claro que o autor rechaça o argumento de que os fins justificam os meios.
O gibi tem um ótimo arco principal. O ponto alto é quando Mills utiliza o estudo acadêmico da personagem Lynn contra as figuras heroicas ao destilar críticas severas contra o "simbolismo fálico", além de todo ideal e consequências que essa visão hiper masculina possui, repreendendo manifestações sentimentais por considera-las feminina e, simultaneamente, relacionando o feminino como objeto de conquista e dominação, contribuindo com a manutenção da estrutura patriarcal, machista e homofóbica. Depois da história elementar, a série torna-se episódica, mantendo um bom nível com ótimas reflexões e provocações aos personagens de Marvel e DC ¬– algumas paródias são muito boas. Talvez a mudança de editoria e periodicidade tenham atrapalhando o ritmo. Daria nota 4,5 para o arco principal e 4 para capítulos variados. A narrativa visual é impecável, O’Neill traz toda áurea punk e anarquista essencial para esse projeto, uma estilização exagerada (propositalmente), à lá Trainspotting. Fico indignado quando dizem que a estética desse gibi é ruim, certamente a pessoa não compreendeu as camadas mais subjetivas do livro. Este título não só é importante como influenciou Garth Ennis ao escrever The Boys. Uma ótima leitura. As críticas elegantes que Moore tece aos heróis está aqui, mas de maneira nada elegante. Mais parecidas com socos e chutes no estômago.