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    Sociologia do futebol - Dimensões históricas do esporte das multidões

    Richard Giulianotti

    Unijuí
    2003
    134 páginas
    4h 28m
    ISBN-11: 8574292591_
    Português Brasileiro
    4.2
    30 avaliações
    Leram45Lendo15Querem152Relendo0Abandonos3Resenhas1
    Favoritos0Desejados152Avaliaram30

    * Nesta publicação o autor está oferecendo, principalmente aos professores de Educação Física, aos alunos dos cursos superiores de Educaçõa Física e aos profissionais de comunicação envolvidos com as matérias esportivas os elementos teóricos para uma melhor compreensão das críticas que se fazem ao esport

    Resenhas (1)Ver mais
    Gustavo Dias picture
    Gustavo Dias25/05/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    CLÁSSICO

    Fala, galeris! Tudo tranquilo? Neste mês de MAIO resolvi ler um livro sobre um assunto que gosto bastante: o futebol. Se você já escutou aquele papo de que futebol são apenas 22 machos correndo em um gramado ou que o futebol e a política não se misturam, então, esqueça esse papo e venham comigo compreender um pouco deste livro! O livro "Sociologia do Futebol" é um clássico escrito em 2002 pelo Richard Giulianotti, que é um professor super renomado da Universidade de Aberdeen. Neste livro, o sociólogo escocês aborda as mais diversas dimensões sociais, históricas, econômicas e políticas do futebol dentro de uma ordem cronológica dividida entre os períodos TRADICIONAL, MODERNO e PÓS-MODERNO. O período tradicional do futebol é aquele do surgimento do jogo na Inglaterra até a 1ª Guerra Mundial. Lembrando que o futebol era praticado em outros lugares do mundo antes da Inglaterra, contudo, recebe a denominação de futebol primitivo por conta das suas diversas diferenciações ao jogo dos "povos civilizados". Dentro desta perspectiva, o Giulianotti trata do jogo na antiguidade, idade média, no período anterior à sua "criação" no Reino Unido, e como nós o conhecemos hoje. Esta fase tradicional é marcada pelo estabelecimento das regras do jogo, formação das associações para administrar o jogo e a difusão do jogo internacionalmente, isto é, além das "Home Nations". Neste período, o futebol é controlado pelas elites dominantes. Ao longo do livro, o autor aborda o aspecto marxista do jogo, a luta de classes, que ocorre desde o seu início com a criação de clubes ligados aos operários, às fábricas e à aristocracia inglesa, e assim permanece até os dias atuais com a mercantilização do jogo e a sua consequente elitização que separa os grupos sociais. Os estádios de futebol cada vez se tornam espaços menos acessíveis à população mais carente. Quem quiser ver um bom documentário sobre a sua origem e este tema recomendo o "English Game", que se encontra na Netflix. Um outro tema tratado dentro do livro é como as identidades e as rivalidades são construídas. As rivalidades podem ser construídas sob diversos prismas: I. Históricos - Israel, por exemplo, disputa as eliminatórias da Europa por conta da rivalidade com o mundo árabe. II. Geográficas - Argentina e Uruguai por conta do Rio da Prata. Ceará x Fortaleza por serem clubes do estado do Ceará. III. Etnocêntricas - Pense no Dínamo Zagreb (Croácia) x Estrela Vermelha (Sérvia) que possuem uma rivalidade de origem étnica desde a época da Iugoslávia. IV. Religiosas - Na Escócia, a rivalidade entre Rangers x Celtics. O Rangers antigamente era representante dos protestantes e possuía a sua história atrelada aos sindicados e a indústria naval. Por muito tempo não permitiram a contratação de jogadores católicos, já o Celtic tinha ligação com os católicos da Irlanda do Norte. V. Classistas - Na Turquia se tem o representante da aristocracia (Galatasaray), do proletariado (Besiktas) e o da classe média (Fenerbahçe). A construção de identidade podemos analisar a partir da ligação dos clubes com as suas cidades e respectivas populações. Pense na relação entre Barcelona e a Catalunha ou entre o Athletic Bilbao e o povo Basco. O futebol tem o poder de fazer com que uma cidade seja representada por um time. Na leitura do livro, eu pensei na cidade de Chapecó que ganhou o mundo por conta da tragédia com o time da Chapecoense. Qual a imagem que foi construída ali da cidade? O futebol tem um poder impressionante de criar um espírito de solidariedade e pertencimento a um grupo, assim como também tem de dividir os grupos sociais. Esta ordem binária e o maniqueísmo é muito presente no jogo. Uma hora temos um atleta que é o herói do seu time e 15 minutos depois o mesmo pode ser o vilão. Mas seguindo, a segunda fase do jogo seria a era moderna que é a partir da 1ª Guerra Mundial até o final dos anos 80. Essa fase pode sofrer algumas subdivisões (da década de 20 até 60 [pré-moderna] e de 60 até o fim da década de 80). É marcada fortemente pela consolidação do jogo como um esporte global e pelo fortalecimento do nacionalismo. Neste período, o futebol se torna um esporte nacional dentro dos continentes e marcado por uma cultura popular masculina e de classe operária, deste modo, o sociólogo trata do hooliganismo na Inglaterra, Itália, Alemanha, Argentina, Brasil, entre outros lugares. Essa leitura do hooliganismo parte de uma visão muito detalhista que analisa as formas que se estudou o Hooliganismo ao longo do tempo nas Ciências Humanas, por exemplo, a partir da visão marxista de Ian Taylor, da psicologia social de Peter Marsh ou das figurações sociais de Eric Dunning e a Escola de Leicester. Aliás, o livro trata do futebol a todo momento sob os olhares e conceitos de alguns grandes intelectuais como Foucault e Norbert Elias. No período pós-moderno, que é o que vivemos a partir da década de 90, o futebol é marcado pela mercantilização. Dentro ainda da lógica marxista, Giulianotti, tenta compreender o período pós moderno do futebol analisando os contratos de televisão, de jogadores, a publicidade e como empresas fizeram do futebol um bem de consumo. O futebol tem um impacto imenso na economia de inúmeros países (no Brasil fui pesquisar chega à 1% do PIB. Em alguns países, é de 3-4% do PIB). A televisão e o pay per view, que inicialmente, eram visualizados negativamente por parte das federações pelo medo de tirar o público dos estádios fez com que os estádios se tornassem espaços ainda mais lucrativos para ambos. O autor analisa como o torcedor nestes espaços deixou de ser um membro do clube, um indivíduo que participava ativamente dos jogos nas arquibancadas para um telespectador, que vê o jogo como uma peça de teatro e que trata o futebol como um bem de consumo. O futebol que era marcado por torcedores operários lá em seu início, que enxergava o futebol como uma extensão da sua cidade agora torce para times cosmopolitas, vive de selfies e de status sociais. Giulianotti ainda trata da Lei Bosman e da abolição dos tetos salariais (década de 60) que fez com que o futebol entrasse de vez no mundo do livre mercado, assim o livro fala do impacto na circulação de atletas pelo mundo e a desigualdade salarial entre as ligas pelo mundo, além de tentar compreender a identidade dos atletas. Na idade pré moderna, os jogadores eram vistos como "heróis" da classe operária, de alguma subcultura, enquanto na era moderna são produtos e estrelas da mídia internacional. Por último, o livro trabalha com a questão de gênero e o racismo dentro do futebol, como em alguns lugares o futebol chega a ser mais assistido por mulheres do que homens (Japão), a presença feminina nos estádios americanos e como a mulher está inserida dentro de um esporte construído pelos homens e com bases machistas. Como vocês puderam ver o futebol vai muito além de 22 jogadores correndo atrás de uma bola. O futebol é um reflexo de nossa sociedade e está intimamente ligado a questões políticas, econômicas ou históricas.

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