Recentemente li uma entrevista da Anna Kornbluh em que esta defende a tese da literatura recente, contemporânea, ser marcada pela imediatidade do "self", a estreiteza de si mesmo. Isto, claro, não passa de um fruto mais superficial - e portanto visível, para sermos fenomenólogos consequentes - deste nosso período histórico onde o tempo deixou há muito de ser uma categoria relevante para nossa cultura. Aliás, esta sim relevante enquanto categoria. Donde proliferarem a torto e direito livros de ficção cujo ponto de vista é em primeira pessoa, a narrativa é voltada ao "fluxo de consciência" (estilo extremamente contemporâneo!) e a perspectiva está mergulhada no "próprio umbigo", para falar numa linguagem popular. É uma tese ampla e portanto bastante questionável. Como situar a literatura beat neste terreno, por exemplo? Em que medida um Serafim, Ponte Grande pode ser considerado "pós-moderno" e portanto puro pastiche? Claro, uma entrevista não dá conta de responder tudo isso, para tanto eu deveria me voltar para o seu ensaio.
Em todo caso, cair de paraquedas neste artigo foi bem interessante, para não dizer fortuito. O que exemplifica melhor esta tese do que O Quarto Branco? Esta narrativa insossa, marcada por questões espúrias, pastichadas dos nossos finados, mas assombrosos, existencialistas. O texto e a linguagem estão marcados pela ausência, tanto no conteúdo propriamente (o liame no qual conecta os diferentes momentos é claramente o problema da ausência) quanto na forma: uma forma de nada, que não fala nada, incapaz de expressar qualquer coisa além de nada. Vê-se claramente a falta de tato estético, o desejo pelo imediatismo da experiência, a imersão do leitor na cabeça da protagonista; de fato, conforme sugere Kornbluh, falta em cada gota de tinta o poder da mediação, a ânsia pela literatura bem servida, em seu estado puro: pura linguagem, pura escritura! Esta não seria a conclusão de uma esquerdista à moda antiga, está claro; porém, estruturalistas e marxistas hão de convir neste ponto, a saber, que o peso notório do corpo individual-autoral vem a desmanchar a bela tapeçaria na qual eleva prosa e poesia, igualmente, sob este nome tão altivo, tão rico, "literatura". Porque, entenda-se bem, Aguerre não faz isso, não imprime na alvura baça da folha pálida a "ausência de tudo onde se confere presença". Pelo contrário, ela quer matar a estética moderna; pretende imprimir sua alma na escritura e não o contrário, como sugeria Platão! É um livro raso, dependente da vida mesquinha da autora. Não expressa alguma verdade, tampouco alguma solidão. Não é Olho nem Esfinge, apenas humano, minguadamente humano...
Obs.: ainda é uma leitura algo agradável, mesmo que mui longa para uma história tão entediante. De um modo geral, é bem escrito, por isso as duas estrelas e meia.