Ao ler os grandes clássicos da literatura, o que mais destaca para mim é a capacidade do autor de captar a essência humana ao contar a sua história, independente da época em que foi escrita.
Franz Kafka (1883-1924) descreve em O Processo muito mais do que uma indignação pela ausência de sentido na burocracia jurídica e como a interpretação subjetiva flerta com o risco de não se cumprir com o motivo essencial de sua existência: o de fazer justiça.
O autor cria, através desse paralelo, um clima sufocante e angustiante de tormento que nos inunda de sentimentos e impede a razão de distinguir se o que a personagem principal (Joseph K) vive é real ou imaginário. A razão grita que é impossível os fatos narrados serem realidade, ao mesmo tempo que ao enxergar através dos olhos da personagem é impossível não viver essa mesma angústia.
Essa dualidade que quando equilibrada - tão bem representada pelo símbolo do Yin e Yang - nos leva a produzir ideias que se eternizam e sustentam a humanidade, quando se desequilibra também produz uma completa desconexão com o presente ou com os fatos como eles são, agindo de forma destrutiva no extremo oposto.
Não falo do desequilíbrio do ambiente em que o ser humano está inserido que produz criatividade como relatado no livro Onde Nascem os Gênios do Eric Weiner, mas sim do desequilíbrio interno do ser humano.
Ao sentir as dores de Joseph K e deixar elas brigarem com a sua própria razão, é possível refletir quantas vezes entramos voluntariamente no Tribunal do Sótão e nos debatemos com o nosso próprio Juiz Examinador? E como diz o Padre na Catedral (Cap.9): O Tribunal não quer nada de você. Te aceita quando você vem, e te deixa ir embora quando parte.
Que não se subestime a dificuldade de sair do Tribunal do Sótão, onde muitas vezes só é possível com ajuda de um psicólogo ou em casos mais graves de um psiquiatra. Mas que se reflita sobre a inconsciência voluntária de se permitir entrar e sair dele tantas vezes que não se distinguia mais quando se está nele ou não.
Fica aqui o registro também da falta de cuidado da Editora Pé da Letra na revisão da obra. Em todos os capítulos, sem nenhuma exceção, a erros de revisão que cortam a imersão que se faz na história, defeito esse nunca visto em tanta abundância em outras editoras.
Boa Leitura!!!