Como um livro pode dizer tanto em pouquíssimas páginas? Essa é a sensação predominante ao terminar o breve e intenso "Aquele que é digno de ser amado", do escritor marroquino Abdellah Taïa. O livro é composto por quatro cartas escritas em tom de despedida, do remetente para o destinatário, sendo que o protagonista Ahmed ora escreve, ora é a quem se destina a carta.
A primeira carta, escrita por Ahmed para sua mãe Malika, aborda a complexa relação entre os membros de sua família no Marrocos. Ahmed descreve a matriarca da família como uma ditadora, e relata a submissão do pai à esposa, bem como a preferência dela em relação ao filho mais velho, e a rejeição a ele como homossexual e às filhas mulheres. A segunda carta é escrita por Vincent a Ahmed, com quem teve um caso de um dia, e depois Ahmed foi embora sem dar endereço. A carta é permeada de lamentos do Vincent, tentando desvendar o motivo do abandono precoce do rapaz, e o que poderia ter feito de diferente para que Ahmed ficasse.
A terceira carta é escrita por Ahmed a Emmanuel, o francês com quem vai embora do Marrocos para a França. Nessa carta, Ahmed relata a perda de sua identidade como marroquino ao ter que adotar a cultura, o idioma e até mudar seu nome para ser aceito pela sociedade francesa, e a relação de controle que Emmanuel tinha sobre a vida dele, planejando cada detalhe. A última e derradeira carta é escrita por Lahbib a Ahmed, seu amigo de infância no Marrocos. Os dois, únicos homossexuais em seu círculo, tinham uma relação de companheirismo e confidência. Essa carta é peça chave pra compreender as entrelinhas de determinados acontecimentos e escolhas de Ahmed, e inclusive o título da obra.
Aquele que é digno de ser amado é um livro que fala muita coisa em poucas linhas, o que torna impossível descrevê-lo completamente em uma resenha. O livro aborda o triste dilema dos homossexuais em países islâmicos em escolher entre viver reprimido em seu país de origem ou ter uma suposta liberdade em um país estrangeiro, longe de sua cultura, de seus familiares, de suas raízes, que são parte intrínseca de sua identidade. É possível refletir sobre a idealização que muitos de nós, vindos de países em desenvolvimento, temos de que alcançaremos a felicidade em um país desenvolvido, o que nem sempre corresponde a árdua realidade.