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    Morangos Mofados (Circo do Livro) -

    Caio Fernando Abreu

    Editora Brasiliense
    1987
    160 páginas
    5h 20m
    ISBN-13: 9788579470370
    Português Brasileiro
    4.1
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    Astrologia e cocaína. Poços e nuvens. Angela Ro-Ro e Erik Satie. Poesia e delírio. Blues e boleros. Sexo e solidão. Tango e rock and roll. Varandas e cimento. Adolescentes, vagabundos, comunistas, magos, ex-hippies, homossexuais, loucos, secretárias, toxicômanos, militares, presidiários, ciganas, psicanalistas, publicitários. Entre mofo e morangos, passeiam suas obsessões as personagens quase sempre anônimas de Caio Fernando Abreu. Frescos morangos vermelhos mofados alimentando as latas de lixo jogadas pelo asfalto da grande cidade. Movimento em direção a um palmo qualquer de luz. Ou sombra.

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    Arsenio Meira03/07/2013Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    MORANGOS MOFADOS : CONTO E POESIA

    Dividida em três partes, Morangos Mofados é, ao que me consta, a obra mais conhecida de Caio Fernando Abreu. A primeira parte, intitulada O Mofo, narra a queda de valores, dos amores, a solidão, a fragilidade humana, a embriaguez, a rota solitária das drogas, o desespero, o desamor, a dor na forma mais fria e crua. A tessitura literária é precisa, quase cirúrgica; Caio vai nos apresentando uma série de personagens anônimos, que ao final se personifica em uma única pessoa: o autor? Ou, quem sabe, até mesmo qualquer um de nós. O gosto acre da derrota, cheirando a mofo, a vômito, a vodca barata, cigarros e cinzeiros abarrotados. Uma melodia melancólica ao fundo. Chet Baker? Ou Billie Holiday? São tangíveis a escuridão e os desencontros. O gosto da solidão esculpida em delírios. A alma grita, encravada em labirintos tortuosos e escuros de forma magistral. A sensação é idêntica à saída de uma montanha-russa. Os Morangos. Aqui, uma brisa inesperadamente serena invade o som e os passos dos personagens. Como se a existência de um final feliz fosse possível e breve, ou como se a vida fosse menos pesada. O doce levemente ácido do morango fundindo na língua, mostrando um belo dia de sol após uma tempestade. Mas o doce dá espaço para a acidez, transformando pedaços de magias em mágoas e solidão. Enquanto o dente fere o vermelho brilhoso do morango, na boca permanece o gosto azedo do preconceito, do medo, dos sonhos perdidos, das utopias transformadas em contas bancárias. O enjôo natural dos abusos. Dos delírios causados pelo excesso de tudo. Histórias envolventes. Escrever para não sucumbir. Resistir. hippies sem destinos, loucos, comunistas, yupes desenfreados, compulsivos, sargentos, preconceitos, estupidez, falta de amor. Dos sonhos de uma geração apodrecendo na latrina comum. Das vidas apodrecendo em latrinas fétidas comuns. A paz tão perto e tão distante que os rápidos movimentos de nossos olhos não conseguem captar. Tampouco poderiam. Morangos Mofados. A terceira parte. Leitura acompanhada pela lembrança da velha canção dos Beatles: Let me take you down/ cause Im going to Strawberry Fields/ Nothing is real/ and nothing to get hungabout/ Strawberry Fields forever. Para ler e reler sempre que a saudade ou a dor falar mais alto. Os morangos mofados, como estrangeiro em sua terra natal, ou girassóis no inverno enfeitando os pastos da Rússia, ou uma Guerra Santa O cheiro e o gosto do mofo ultrapassam toda a simbologia poética do morango. Caio construiu um universo paralelo, um refúgio, um abrigo, uma morada longe, mas dentro, do caos urbano. Uma espécie de esconderijo para se abrigar da chuva tóxica, ou dos desatinos do coração. Solitude. Solidão. Enquanto imagens explodem diante de nossos olhos cansados, ao fundo, o som dos Beatles vai levemente aumentando... As palavras pinçadas por Caio nos estendem caminhos absortos. O livro nas mãos e o pensamento longe. Para alguns, perto. Ou em lugar algum. É justo que pensem, e cada um pensa o que quer, e cada um é diferente, e no entanto, somos todos irmanados pela mesma luz inaugural. Há quem prefira ir embora com tudo, há quem seja transeunte e há quem compreenda.

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    Caio Fernando Loureiro de Abreu

    Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu no dia 12 de setembro de 1948, em Santiago, no Rio Grande do Sul. Jovem ainda mudou-se para Porto Alegre onde publicou seus primeiros contos. Cursou Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, depois Artes Dramáticas, mas abandonou ambos para dedicar-se ao trabalho jornalístico no Centro e Sul do país, em revistas como Pop, Nova, Veja e Manchete, foi editor de Leia Livros e colaborou nos jornais Correio do Povo, Zero Hora, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. <br /><br />No ano de 1968 — em plena ditadura militar — foi perseguido pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), tendo se refugiado no sítio da escritora e amiga Hilda Hilst, na periferia de Campinas, São Paulo. <br /><br />Considerado um dos principais contistas do Brasil, sua ficção se desenvolveu acima dos convencionalismos de qualquer ordem, evidenciando uma temática própria, juntamente com uma linguagem fora dos padrões normais. <br /><br />Em 1973, querendo deixar tudo para trás, viajou para a Europa. Primeiro andou pela Espanha, transferiu-se para Estocolmo, depois Amsterdã, Londres — onde escreveu Ovelhas Negras — e Paris. Retornou a Porto Alegre em fins de 1974, sem parecer caber mais na rotina do Brasil dos militares: tinha os cabelos pintados de vermelho, usava brincos imensos nas duas orelhas e se vestia com batas de veludo cobertas de pequenos espelhos. Assim andava calmamente pela Rua da Praia, centro nervoso da capital gaúcha. <br /><br />Em 1983 transferiu-se para o Rio de Janeiro e em 1985 passou a residir novamente em São Paulo. Volta à França em 1994, a convite da Casa dos Escritores Estrangeiros. Lá escreveu Bien Loin de Marienbad. <br /><br />Ao saber-se portador do vírus da AIDS, em setembro de 1994, Caio Fernando Abreu retorna a Porto Alegre, onde volta a viver com seus pais. Põe-se a cuidar de roseiras, encontrando um sentido mais delicado para a vida. Foi internado no Hospital Menino Deus, onde posteriormente veio à falecer.

    51 Livros
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    Rio Grande do Sul, Brasil

    Caio Fernando Loureiro de Abreu