A Impossível Faca da Memória é o mais novo lançamento da Lauria Halse Anderson no Brasil, e a editora Valentina nos cedeu um exemplar para a resenha. O livro conta a história de Hayley, uma adolescente que tenta se adaptar a uma "vida normal" ao lado do pai, um veterano do exército que sofre com transtorno pós-traumático, depressão e o abuso de substâncias.
Hayley não se lembra muito do que aconteceu antes dela cair na estrada com o pai, aos 12 anos, dirigindo um caminhão por todo Estados Unidos. Agora que ela está com 16 anos, no entanto, Andy achou melhor se estabelecerem em algum lugar para que ela possa terminar os estudos e se candidatar a universidade.
É por isso que eles retornam para a cidade natal de Andy, morando na casa que fora de sua avó, e tentam estabelecer uma rotina. A princípio, a garota acha que estar de volta ao lar de infância possa fazer bem ao pai, mas conforme o tempo passa e o passado começa a alcançá-los, Hayley fica sem saber até quando eles aguentarão.
"Engoli o medo. Ele está sempre ali, e ou você se mantém na superfície, ou se afoga."
Assim que peguei A Impossível Faca da Memória para ler, eu já percebi que era um livro da Laurie Halse Anderson. Assim como Garotas de Vidro e Fale! o livro traz a marca registrada da autora, que é sua capacidade de tratar de temas tão delicados de uma forma bem sensível. O que acaba tornando a história até leve, fácil de ler.
Além disso, a narrativa da Laurie é muito fluída, os acontecimentos se costuram muito bem, sem ficar forçado ou surgir do nada e desaparecer. Toda cena tem uma função bem definida e não teve nenhum momento que eu fiquei "tá, mas o que isso quer dizer?". Fora isso, eu amei como o nome se encaixa na história pelas entrelinhas. Normalmente eu amo quando o título é citado dentro da história, mas esse nunca é e, ainda assim, ele está presente em cada parágrafo. A Impossível Faca da Memória não é um acontecimento que pode ser apontado, mas é a sensação de toda a história.
Meu medo era acabar não gostando do Finn, o interesse amoroso da Hayley. Eu nunca tinha lido um romance escrito pela Laurie, por isso não sabia exatamente o que esperar. Mas fiquei bem feliz com ele. Não foi nenhum cara ou casal que me fez suspirar e tudo o mais, mas eu definitivamente me diverti com as piadas internas deles. Também gostei de ver o crescimento da Hayley ao ir se abrindo para outras pessoas e enxergar as camadas no Finn.
"Eu precisava ouvir o mundo, mas o mundo não precisava saber que eu estava ouvindo."
A Hayley foi a minha personagem preferida, acho. Ela é complexa, e ao mesmo tempo simples. Ela tem um terrível medo de abandono e está constantemente tentando salvar o pai, além de ser extremamente afetada pela doença dele. Hayley vive em alerta constante e se culpa muito quando baixa a guarda e algo acontece. Ela não teve tempo para ser uma criança e uma adolescente normal, e a gente vê isso nos trejeitos dela, na forma como se relaciona e enxerga o mundo, no sentindo de "somos nós contra o mundo" que ela exibe.
O Andy, pai da Hayley, também tem um papel muito importante. Ver ele afundando na depressão, no álcool, sucumbindo ao TPS foi triste. Os dias bons e os dias muito, muito ruins, e a forma como tudo isso afetava a filha dele. Apesar de já esperar gostar muito do livro, A Impossível Faca da Memória foi diferente do que eu estava esperando e me surpreendeu muito. Positivamente, aliás.
No fim é uma história sobre como a nossa vida afeta a das pessoas que amamos e um grito desesperado de "por favor, procure ajuda e fique bem". E mesmo correndo o risco de ser redundante, é importante deixar claro: se você ou alguém que você conhece está passando por momentos difíceis ou sofrendo com doenças mentais: procure ajuda e fique bem.
O livro está disponível no formato físico e em e-book. Para os assinantes do Kindle Unlimited, da Amazon, ele saí de graça.