Em 'A silenciosa inclinação das águas', Alex Sens nos convida a revisitar a vida de Orlando, Tomas, Muriel, Alister, Herbert e, principalmente, Magnólia, sete anos após os eventos marcantes de O Frágil Toque dos Mutilados, também livro do premiado autor.
À primeira vista, a narrativa se inicia com a família ainda abalada por tragédias passadas, e Magnólia, cada vez mais distante do irmão e enfrentando uma crise em seu casamento. Uma nova tragédia revelada na segunda parte do livro, porém, os reúne em uma viagem transformadora para a Noruega, onde cada um terá a oportunidade de confrontar seus próprios demônios e lidar com o luto que os assola.
Sobretudo, a viagem se torna um catalisador para que cada membro da família se descasque de suas máscaras e fragilidades, expondo suas dores mais íntimas e seus terrores mais profundos. É um processo de reconstrução de identidades marcadas pela ausência e pelo silêncio, onde cada personagem busca compreender seus relacionamentos e as experiências que os moldaram ao longo dos anos.
Alex Sens nos presenteia com um romance que transcende o simples reencontro familiar. A obra mergulha nas dores veladas, na dificuldade de preencher o vazio deixado pela morte e nos efeitos da ausência no ritmo da vida. O autor explora a complexidade das relações humanas, a dificuldade de lidar com o luto e a busca por um novo sentido na vida.
"Talvez o maior castigo para um morto fosse a recusa da extensão de sua permanência através dos objetos, como algumas pessoas faziam doando roupas, remodelando quartos, vendendo móveis ou, de maneira mais amarga, rasgando foto, atirando no lixo o desnecessário, estourando cada lembrança como um casulo de pus, vendo sua matéria inflamada escorrer até não sobrar nada além de um resíduo de sua existência."
Em outras palavras, a narrativa é marcada por um silêncio quebrado aos poucos, revelando segredos ocultos que podem mudar o rumo da história. Magnólia, em particular, é uma personagem complexa e intrigante, que guarda um segredo capaz de transformar a vida de todos ao seu redor.
O que mais me tocou em 'A silenciosa inclinação das águas' foi a profundidade dos personagens e que Alex Sens cria personagens complexos e humanos, com dores e angústias que ecoam em nós.
Inegavelmente, a sensibilidade na abordagem do luto foi o ponto mais auto do livro, afinal, eu perdi meu grande amor, meu marido Anderson Aleixo, no dia 10 de julho de 2024 e a dor da perda é latente, dolorida. Aqui o autor explora o tema do luto com delicadeza, mostrando as diferentes formas como cada pessoa lida com a perda.
Em contrapartida, a beleza da escrita através da prosa de Alex Sens é poética e envolvente, transportando o leitor para o universo íntimo dos personagens, que dá força à narrativa e a história nos prende do início ao fim, com reviravoltas e revelações que nos fazem questionar nossas próprias vidas.
Sobretudo é uma obra que explora temas complexos e universais, como família, luto e identidade. Aqui os leitores que apreciam narrativas intimistas, pois, o livro nos convida a mergulhar na alma dos personagens e a compartilhar suas dores e alegrias.
A silenciosa inclinação das águas é um livro que nos toca na alma e nos faz repensar nossas prioridades. É uma obra que merece ser lida e relida, e que certamente ficará marcada em nossa memória.
Em suma, é um romance emocionante e profundo, que nos convida a refletir sobre a vida, o luto e a importância de nos reconectarmos conosco e com aqueles que amamos. É uma leitura que marca e que fica conosco muito tempo após terminada.
Resenha completa no blog Irmãos Livreiros: