Um pé de milho reúne crônicas publicadas em vários jornais e revistas entre 1933 e 1947. Algumas, como Passeio à Infância e Em Cachoeiro, retratam a infância de Rubem Braga, enquanto que outras, como História do Corrupião, Receita de Casa e a obra-prima Aula de Inglês, reverberam a ironia e o humor do autor com bastante intensidade. São crônicas que, apesar do tom realista, se abrem para o imaginário e revelam a grande marca de Braga: a abordagem do mundo em que vivemos através de seus dois lados, o incômodo e o belo. O escritor José Lins do Rego, ao ler Um pé de milho, identificou algo que veio da infância do cronista em Cachoeiro de Itapemirim, sua cidade natal, e que se enraizou, mantendo-se mesmo em sua agitada vida nas grandes cidades: ”Tudo que ele viu, tudo o que ele amou, tudo o que debochou com seu sorriso mais falso que os olhos de Capitu, nada é para o Braga que eu conheço. Deem-lhe um pé de milho, ali no fundo do seu quintal da rua Júlio de Castilhos, e o Braga se desmancha na doce poesia da crônica mais terna que um sopro de brisa”.
Um pé de milho -
Rubem Braga
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Aí está o Braga perto de fazer 100 anos, e por coincidência estive relendo "Um Pé de Milho", com crônicas suas feitas em meados dos anos 40. O livro não contém tantas citações diretas a notícias de jornal como os seus anteriores, mas é bastante povoado por problemas da época que, imagina-se, saiam em jornal. Braga é um cronista urbano do Rio de Janeiro e, ao menos nas crônicas selecionadas, bem menos severo que um Bilac, por exemplo. É que há um tanto de melancolia em tudo o que Braga escreve e, mesmo que ele fale da falta de água na cidade, faz isso com tanta graça que não temos muito ânimo para nos indignar. Acompanhamos o cronista várias vezes dentro de uma autolotação, e nos sentimos bastante próximos a ele, sofrendo as mesmas injustiças, mas com algum desalento. Este é o livro que conta com algumas das mais curiosas experimentações de Braga, inclusive com alguns flertes com a ficção, ou algo próximo a ela (como na impagável "Eu e Bebu na hora neutra da madrugada" ou nas improváveis "História do Corrupião" e "História do Caminhão"). Nestas duas últimas, e mais em "Aventura em Casablanca" e "História de São Silvestre", Braga manteve a artimanha de continuar a história na semana seguinte, utilizada no tempo da publicação na imprensa. Não apenas esse expediente nunca mais foi usado em seus livros como o próprio estilo de narrativa - se me permitem, longe da sua maestria - também não se repetiu. No mais, lá estão os seus passeios à infância, os louvores à Cachoeiro do Itapemirim, e sua permanente comunhão com a natureza, da qual a crônica-título parece ser o melhor exemplar. Braga ainda faz as vezes de conselheiro sentimental e faz divagações sobre o amor. E o humor que tempera tão bem o gênero está perfeitamente representado na inesquecível "Aula de Inglês", que é inclusive apontada por Roberto Braga, filho do cronista, como a melhor que já fez. O livro termina com o bonito registro circunstancial de "As Velhinhas da Rua Hamelin", quase um indicativo do que seria a sua produção francesa publicada no seu livro seguinte, "A Borboleta Amarela". Leiam, leiam o Braga. Aproveitem o centenário que aí está, mesmo que pouca gente dê grande importância a ele - mas quem mandou, meu caro Braga, se dedicar às couves da literatura?
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