Uma pequena obra em uma edição com letras grandes, parágrafos curtíssimos (às vezes com um único período), e a maioria das orações em períodos simples: tudo isso pode nos levar ao engano de que se trata de uma obra superficial, tola, fútil. Ledo engano. Thomas, o impostor pode não ser uma obra profunda como os mergulhos herméticos (ou simplesmente pretensiosos) de alguns escritores, mas também não é rasa como muitas das obras que proliferam no mercado feito mato depois da chuva.
Um rapaz se apropria (sem querer querendo) de um sobrenome famoso e se faz passar por um parente de um militar célebre, poderosíssimo e da alta aristocracia. No entanto, o próprio rapaz não percebe que se encaminha para a tragédia (sem spoiler). Deslumbrado, o rapaz não percebe que se torna um fantoche das circunstâncias e é engolido por elas. Inconstante, o rapaz não percebe que nossa única certeza se aproxima a cada passo (e ele, não contente com isso, acaba dando vários passos em direção a ela).
O autor nos faz pensar sobre a cultura da celebridade, sobre a eterna luta entre o querer ser e o simplesmente ser (essência e aparência para ser mais exato) e o deslumbramento de tantos pelas camadas mais altas e o não pertencimento a elas. E esse é um dos méritos do livro: fazer-nos perceber que, seja em qual espécie de vida nos encontremos, mais cedo ou mais tarde, acabaremos por agir de forma deslumbrada, ingênua, otimista demais, sem perceber que ao nosso lado temos um abismo que nos aguarda.
E, quando, finalmente, estivermos prestes a dar o último passo em direção a esse abismo, perceberemos que pouquíssimas pessoas dentre aquelas que conhecemos se levantarão para nos impedir de dar nosso último passo ou simplesmente perceberão que já não estamos mais no caminho...