Filosofia e espiritualidade Assim me tornei um louco. E encontrei liberdade e segurança em minha loucura; a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aqueles que nos compreendem escravizam algo em nós. Neste livro, Khalil Gibran (1883-1931) repete a façanha que o imortalizou em O profeta ao unir filosofia e espiritualidade em textos que são verdadeira poesia em prosa. Em O louco (1918), o autor questiona temas eternos e contundentes como a religião, a moralidade e as normas sociais fazendo uso, de maneira única, de parábolas e poemas. Já em Areia e espuma (1926), Gibran presenteia o leitor com uma coleção de aforismos que revelam, à primeira vista de modo simples, a profunda sabedoria de um dos escritores mais lidos da história.
O louco - seguido de Areia e espuma
Khalil Gibran
O Louco - Khalil Gibran
COMO ME TORNEI UM LOUCO Você me pergunta como me tornei um louco. Foi assim: um dia, bem antes de muitos deuses nascerem, acordei de um sono profundo e descobri que todas as minhas máscaras haviam sido roubadas – as sete máscaras que confeccionei e usei em sete vidas –, e corri com o rosto descoberto pelas ruas lotadas, gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões”. Homens e mulheres riram de mim, e alguns correram para dentro de casa com medo. E, quando cheguei ao mercado da rua, um jovem no alto de uma casa gritou: “Ele é um louco”. Olhei para cima a fim de contemplá-lo; o sol beijou meu rosto descoberto pela primeira vez, e minha alma se inflamou de amor pelo sol, e eu não queria mais minhas máscaras. E, como se estivesse em transe, gritei: “Abençoados, que sejam abençoados os ladrões que roubaram minhas máscaras”. Assim me tornei um louco. E encontrei liberdade e segurança em minha loucura; a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aqueles que nos compreendem escravizam algo em nós. DEUS Nos tempos antigos, quando os primeiros tremores da fala chegaram a meus lábios, subi ao topo da montanha sagrada e falei com Deus, dizendo: “Senhor, eu sou vosso escravo. Vossa vontade oculta é minha lei e vos obedecerei para todo o sempre”. Deus, porém, não me deu resposta, e se foi como uma tempestade poderosa. E depois de mil anos subi ao topo da montanha sagrada e mais uma vez falei com Deus, dizendo: “Criador, eu sou vossa criação. Do barro me fizestes e a ninguém além de vós devo tudo o que é meu”. E Deus não me deu resposta, e se foi como o voo de mil asas velozes. E depois de mil anos subi ao topo da montanha sagrada e mais uma vez falei com Deus, dizendo: “Pai, eu sou vosso filho. Vossa piedade e vosso amor me deram à luz, e através do amor e da devoção hei de herdar vosso reino”. E Deus não me deu resposta, e se foi como a névoa que cobre como um véu as colinas distantes. E depois de mil anos subi ao topo da montanha sagrada e mais uma vez falei com Deus, dizendo: “Meu Deus, minha meta e minha plenitude; eu estava em vossas mãos ontem, e meu amanhã é vosso. Sou vossa raiz na terra e vós sois minha flor no céu, e juntos crescemos sob o sol”. Então Deus se inclinou sobre mim, e nos meus ouvidos sussurrou palavras cheias de doçura, e assim como o mar engolfa um riacho que corre em sua direção, Ele me recebeu. E quando desci para os vales e as planícies Deus também estava lá. MEU AMIGO Meu amigo, eu não sou o que aparento. A aparência é só uma vestimenta que uso – uma vestimenta tecida pela consideração e que protege a mim de teus questionamentos e a ti de minha negligência. O “eu” em mim, meu amigo, reside na morada do silêncio, e assim deve permanecer para todo o sempre, oculto, inacessível. Não quero que tu acredites no que digo nem que confies no que faço – pois minhas palavras nada são além de teus pensamentos em forma de som, e meus atos, tuas esperanças em forma de ação. AS SONÂMBULAS Na cidade em que nasci viviam uma mulher e sua filha, que andavam durante o sono. Certa noite, enquanto o silêncio envolvia o mundo, a mulher e sua filha, caminhando adormecidas, encontraram-se em seu jardim encoberto pelo sereno. E a mãe falou: “Até que enfim, minha inimiga! Você que destruiu minha juventude – que construiu sua vida sobre as ruínas da minha. Tenho vontade de matá-la!”. E a filha falou: “Oh, mulher odiosa, egoísta e velha! Que me impede de deixar meu lado mais livre vir à tona! Que gostaria que minha vida fosse um eco de sua vida opaca! Como eu queria que estivesse morta!”. Nesse momento o galo cantou, e ambas acordaram. A mãe perguntou gentilmente: “É você, minha cara?”. E a filha respondeu gentilmente: “Sim, querida”. OS DOIS EREMITAS Numa montanha solitária, viviam dois eremitas que cultuavam a Deus e amavam um ao outro. E os eremitas tinham uma tigela de barro, e essa era sua única posse. Certo dia um espírito maligno entrou no coração do eremita mais velho, e ele foi até o mais jovem e disse: “Já vivemos juntos por tempo demais. É hora de nos separarmos. Vamos dividir nossas posses”. O eremita mais jovem se entristeceu e falou: “Lamento, irmão, que queiras me deixar. Mas, se tu precisas ir, que assim seja”, e pegou a tigela de barro e lhe deu, dizendo: “Não temos como dividi-la, irmão, então que seja tua”. E o eremita mais velho falou: “Caridade eu não aceito. Não vou levar nada que não seja meu. É preciso dividi-la”. E o eremita mais jovem respondeu: “Se a tigela for quebrada, que uso terá para mim e para ti? Se for de teu agrado, podemos tirar a sorte”. Porém o eremita mais velho insistiu: “Só aceito o que é justo e meu por direito, e não posso aceitar que o acaso determine o que é justo e meu por direito. A tigela precisa ser dividida”. Como não tinha mais o que argumentar, o eremita mais jovem disse: “Se é esse mesmo teu desejo, e se tu não queres mesmo levá-la, pois quebremos a tigela”. Contudo o rosto do eremita mais velho só se tornou mais sombrio, e ele gritou: “Oh, maldito covarde, tu te recusas a lutar”. SOBRE DAR E RECEBER Em certa ocasião, houve um homem que era dono de uma quantidade infindável de agulhas. Um dia a mãe de Jesus foi até ele e disse: “Amigo, a vestimenta de meu filho está rasgada e precisa ser remendada para que ele possa ir ao templo. Tu podes me ceder uma de tuas agulhas?”. E ele não lhe deu uma agulha, e sim um discurso erudito sobre dar e receber, para que ela transmitisse ao filho antes de ir ao templo. A ROMÃ Certa vez, quando eu vivia no interior de uma romã, escutei uma semente dizer: “Um dia me tornarei árvore, e o vento cantará nos meus galhos, e o sol dançará nas minhas folhas, e serei forte e linda em todas as estações”. Em seguida outra semente se manifestou e disse: “Quando eu era jovem como você, também alimentava tais visões; mas, agora que sei avaliar e mensurar as coisas, vejo que minhas esperanças eram vãs”. E uma terceira semente também falou: “Não vejo nada em nós que seja promessa de um grande futuro”. E uma quarta disse: “Mas que piada nossa vida seria sem um futuro melhor!”. Uma quinta entrou na conversa: “Por que discutir o que seremos, se não sabemos nem o que somos?”. Mas uma sexta retrucou: “O que quer que sejamos, continuaremos a ser”. E uma sétima falou: “Tenho uma ideia bastante clara de como as coisas serão, mas não consigo colocar em palavras”. Então uma oitava tomou a palavra – e uma nona – e uma décima – e depois várias das demais – até estarmos todas falando, sem conseguir distinguir as vozes umas das outras. O COVEIRO Certa vez, quando estava enterrando um dos meus falecidos eus, o coveiro se aproximou e me falou: “De todos os que vêm aqui fazer seus enterros, você é o único de quem gosto”. Disse eu: “Isso me agrada muitíssimo, mas por que você gosta de mim?”. “Porque”, ele explicou, “os outros chegam chorando e vão embora chorando – você é o único que chega rindo e vai embora rindo.” O OLHO Disse o Olho certo dia: “Vejo além destes vales uma montanha coberta de névoa azulada. Não é uma beleza?”. A Orelha escutou, e depois de se concentrar atentamente por um tempo disse: “Mas onde está a montanha? Não estou ouvindo”. Então a Mão se manifestou e falou: “Estou tentando em vão senti-la e tocá-la, e não consigo encontrar nenhuma montanha”. E o Nariz disse: “Não há montanha alguma. Não estou sentindo o cheiro”. Então o Olho se voltou para outro lugar, e todos começaram a falar sobre sua estranha ilusão. E eles disseram: “Deve haver algum problema com o Olho”. QUANDO MINHA TRISTEZA NASCEU Quando minha Tristeza nasceu eu a cultivei com carinho, e a acompanhei com uma ternura amorosa. E minha Tristeza cresceu como todas as coisas vivas, forte e bonita e cheia de deleites incríveis. E nós nos amávamos, minha Tristeza e eu, e nós amávamos o mundo ao redor; pois a Tristeza tem um coração generoso, e o meu era generoso com a Tristeza. E quando conversávamos, minha Tristeza e eu, nossos dias eram alados e nossas noites eram adornadas de sonhos; pois a Tristeza tinha uma língua eloquente, e a minha era eloquente com a Tristeza. E quando cantávamos juntos, minha Tristeza e eu, nossos vizinhos se sentavam à janela e escutavam; pois nossas canções eram profundas como o mar, e nossas melodias eram repletas de estranhas lembranças. E quando caminhávamos juntos, minha Tristeza e eu, as pessoas nos observavam com olhares gentis e murmuravam palavras que transbordavam doçura. E havia aqueles que nos encaravam com inveja, pois a Tristeza era uma coisa nobre e eu demonstrava orgulho com a Tristeza. Mas minha Tristeza morreu, como todas as criaturas vivas, e sozinho fui deixado para refletir e ponderar. E agora quando falo minhas palavras pesam em meus ouvidos. E quando canto minhas canções os vizinhos não vêm escutar. E quando caminho pelas ruas ninguém me olha. Apenas no sono escuto vozes piedosas dizendo: “Vejam, lá está o homem cuja Tristeza morreu”. E QUANDO MINHA ALEGRIA NASCEU E quando minha Alegria nasceu, eu a tomei nos braços e subi ao telhado para gritar: “Venham, vizinhos, venham ver, pois neste dia a Alegria nasceu em mim. Venham contemplar esta criatura contente que gargalha sob o sol”. Porém nenhum de meus vizinhos veio ver minha Alegria, e minha perplexidade foi grande. E todos os dias por sete luas proclamei minha Alegria do telhado de casa – mas ninguém me deu ouvidos. E minha Alegria e eu continuamos sozinhos, sem sermos vistos nem visitados. Então minha Alegria empalideceu e se exauriu porque nenhum coração além do meu admirava sua graciosidade e nenhuma outra boca beijava seus lábios. E minha Alegria morreu de solidão. E agora só me recordo de minha Alegria morta ao pensar em minha Tristeza morta. Mas a lembrança é uma folha de outono que murmura por um tempo sob o vento e nunca mais é ouvida.
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