[Na estante]
“Tirza” de Arnon Grunberg, publicado no Brasil pela Radio Londres. Leitura de setembro de 2015, foi meu primeiro contato com o autor, que me transformou em fã logo de cara.
O começo é um pouco lento, mostra a rotina de uma família, a narrativa é bem fragmentada, mas logo o leitor começa a encaixar as peças. De cara podemos perceber que há algo muito errado com o protagonista e lá pro meio da leitura, o medo psicológico começa a crescer a ponto de ser praticamente impossível interromper a leitura, a tensão é toda baseada nas entrelinhas, naquilo que não é dito.
A dinâmica familiar é bastante disfuncional, temos um relacionamento entre pai e filha mais nova que é codependente e destrutivo.
Há um evento terrível e muito marcante na narrativa que à princípio fica subentendido e quando o autor faz sua descrição quase no final do livro, impressiona pela forma como ele usa um cenário singelo, palavras brandas, para descrever algo brutal.
Os personagens são muito bem construídos, o autor mostra para o leitor a humanidade presente no algoz, bem como a maldade no inocente. O desenvolvimento de cada personagem é bem engendrado e suas atitudes, mesmo as mais excêntricas, são verossímeis.
Ainda que narrado em terceira pessoa, o autor consegue aproximar o leitor e personagens, tanto com sentimentos como com pensamentos, quebrando um pouco aquela ideia preconcebida de que apenas a narrativa em primeira pessoa pode ser “íntima”.
O final é surpreendente e me deixou sem fôlego, assim que finalizei o capítulo, voltei para uma releitura imediatamente.
Esse é um livro pesado, indigesto, que incomoda e eu compreendo completamente quem não teve estômago para passar da metade da leitura. Mas se você gosta de livros que reviram pensamentos e tiram seus pés do chão, Tirza é mais que recomendado.