A odisseia do cinema Brasileiro é um mergulho na história do cinema. Começando com os anos da Atlântida e passando pelo turbilhão criativo do Cinema Novo, este livro segue também pelo Tropicalismo, vai ao Cinema Marginal, aos anos da Embrafilme e dali até as indagações da "retomada", no início dos anos 1990. O ponto de partida não é apenas a história dos filmes, mas o esforço construído ao longo de mais de cem anos para consolidar uma rede que envolve artistas, indústria e público em torno de um projeto comum. Se tal projeto funcionou, foi graças a uma verdadeira odisseia, retratada com maestria neste livro.
A odisseia do cinema brasileiro (eBook) - da Atlântida a Cidade de Deus
Laurent Desbois
A Odisseia do Cinema Brasileiro, do cinema mudo à Cidade de Deus
Odisseia é mesmo um bom título para a trajetória da nossa cinematografia. Caracterizada por uma jornada tortuosa, repleta de reviravoltas, mudanças bruscas e inimigos complexos, o título do livro de Desbois já deixa bem claro que esse passeio por mais de 50 anos de cinematografia está longe de ser calmo e redondo. E que todos aqueles que já tiveram uma câmera nos ombros e uma ideia na cabeça são, nessa Odisseia, um Ulisses em potencial. Laurent Desbois traça um panorama compreensível das complexas fases do Cinema Brasileiro. Como o próprio narra, não é nada fácil catalogá-lo: É característica da nossa cinematografia a ruptura total, estilística e industrial, com modelos anteriores. Nosso cinema praticamente recomeça de 30 a 30 anos, e cada recomeço desse traz os mesmos erros dos anteriores, acompanhados por interessantes acertos. É notável a separação em períodos -- Do início do cinema mudo da Vera Cruz até as chanchadas da Atlântida, passando pelo Cinema Novo e Marginal, as crises da Embrafilme e a subsequente Retomada. Desbois deixa pouquíssimo de fora -- E justamente talvez o que ele deixe de analisar mais profundamente esteja o ponto fraco do livro, que falarei mais à frente --, nem que seja uma simples menção. Para começo de conversa, um dos grandes méritos do livro é sua pesquisa prévia enorme. Desbois faz questão de citar inúmeros artigos, críticas e entrevistas que fazem o alicerce teórico do passeio histórico feito por mais de 50 anos de cinema Brasileiro. Compreensível em sua ligeira rebuscadez, o livro de Desbois nunca obscurece as informações, embora às vezes tenda a inclinar-se para uma linguagem mais complexa, o que pode deixar a leitura ligeiramente desapontadora. Como dito anteriormente, o ponto fraco de "Odisseia" não é o que ele fala, e sim o que ele deixa de falar. Passagens rápidas sobre grandes nomes ou fases do cinema Brasileiro que se beneficiariam de, ao menos, algumas seções mais rebuscadas, são constantes. Os Trapalhões e seus sucessos retumbantes são citados apenas uma vez; Mazzaroppi mais de uma, mas de forma superficial. Note que não é demérito de Desbois, porém, não ter se jogado em outros movimentos do cinema Brasileiro: Uma odisseia é feita de escolhas, e Desbois soube escolher suas batalhas para que o livro não ficasse extenso ou verborrágico demais. Embora os pilares principais estejam lá, sustentando o teto, alguns outros que também tiveram grande importância acabam escondidos em suas sombras. "Odisseia" é, então, indispensável para quem quer entender o cinema nacional e sua complexidade, bem como sua relação sociológica com o público, com as minorias (Desbois nunca se empalidece diante da realidade de que o cinema é uma arte de elite e que historicamente é desigual em seus números de realizadores) e com o cinema internacional (Espere muita crítica ao "enlatado hollywoodiano" que desde sempre prejudicou a relação do cinema brasileiro com seu público). Altamente indicado para curiosos, apaixonados e estudantes de cinema, essa Odisseia, assim como a de Homero, é uma jornada épica em um mundo complexo e gigante.
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