O assunto crítica literária é um tema que agrada-me bastante em sua leitura, principalmente quando me deparo com um bom crítico. A afeição por esse tema foi o motivo por eu ter comprado o livro: Percevejos, ideólogos e alguns escritores (2019), do crítico literário Rodrigo Gurgel. Uma obra que reúne 42 críticas, publicadas originalmente no Jornal Rascunho, e estão longe de, tal como o autor chama em sua apresentação, breves ensaios. Suas críticas, mesmo as mais longas, não conseguem atingir o patamar de qualidade de um ensaio, vislumbrei isso apenas no começo da crítica Mais um naturalista (análise da obra "Puçanga", de Peregrino Júnior), em que consegue retratar muito bem o naturalismo. Tirando ela, todas as outras permanecem no nível de uma crítica básica e informacional: um autor que possui muita erudição e, até mesmo, com muitos pensamentos que eu concordo; mas é na forma que ele peca, vamos a ela.
Em um ensaio mais aprofundado, é dada a oportunidade para o escritor citar, de forma direta, um determinado livro de uma maneira mais presente, tomando o cuidado de não se perder só citando trechos do livro analisado. O mesmo deve acontecer em uma crítica literária e, sendo seu tamanho normalmente menor, tomar ainda mais cuidado com o número de citações. Esse é o grande problema dos textos de Gurgel: o crítico literário cita muitíssimo o livro que ele analisa e essa profusão parece que tampa a voz do crítico, sendo essa voz aquilo que o leitor mais busca ouvir.
Essa metodologia adotada por Gurgel se repete em toda obra, que perpassa escritores brasileiros da década de 1920 e 1930, tornando suas análises críticas com um teor mais informacional do que crítico, apesar dele combinar pensamentos de outros autores em seu texto, mostrando o quão erudito é e dando personalidade a sua voz. Mas é algo que não dura muito, e Gurgel volta com uma inundação de citações. Eu diria que 60% ou mais do seu livro é só com citações, pois além dos trechos que ele coloca, ele também faz questão de misturar sua escrita com citações dentro de aspas: é um artifício que, realmente, tira o poder de Rodrigo Gurgel ser um crítico de primeiro escalão, tal como, para citar um que já li, Harold Bloom por exemplo.
Não diminuo mais os números de estrelas, pois penso muito parecido com Gurgel autor que possui uma opinião clara e objetiva e seu conhecimento sobre a literatura nacional da época tratada enriquece o livro.