O mais famoso romance de Julia Lopes de Almeida chama a atenção na primeira pagina: descrevendo trabalhadores em movimento, uma escritora do inicio do século XX demora-se na descrição da seminudez desses mesmos trabalhadores homens. Parece banal, mas não; a própria autora nos informa na segunda pagina que raras eram as mulheres pela rua, quando muito as criadas e algumas estrangeiras de baixa condição. O olhar de JLA faz-se exato: ela vê, e portanto registra; ela não é mulher ou homem: é escritora. Um escritor fala do que vê.
Ainda que ao longo da narrativa, Julia Lopes de Almeida revele, nas observações, nos reparos, nos rompantes indignados de personagens femininas, a sua condição de mulher, além de escritora, de quando em quando o leitor se depara com isso, com esse olhar que enxerga e portanto registra, com esse olhar que se nega a transigir e evitar por um pudor ensinado como essencialmente das mulheres; suas figuras femininas são seres sexuados e isso fica claro; não há preocupação moral - no sentido moralista ou moralizante - ; há necessidade de ser verdadeira.
Há insinuações, pontos em aberto, psicologia e um mergulho no mundo masculino do trabalho - o trabalho que os homens fazem, que eles conhecem, o ambiente no qual eles vivem. Tudo isso não deixa de impressionar o leitor.
Um romance de narrativa ora realista, ora com laivos naturalistas (certas descrições da sujeira e da miséria são exemplos) que tem um final possível de levar o leitor a uma pergunta: "E agora?" Talvez o fim seja aquilo. Mas talvez não...