Para mim, Christian Jacq triunfa e derroca ao mesmo tempo em sua série de livros sobre Ramsés. Ele triunfa ao conseguir tornar mais compreensíveis muitos dos aspectos da vida durante o reinado de Ramsés e dos rituais que regiam o cotidiano do Egito Antigo. Nesse aspecto, a obra de Jacq, na minha percepção, é grandiosa: por meio de seu conhecimento como egiptólogo e de sua paixão pela figura de Ramsés, seus livros recriam um período marcante da história egípcia, aproximando o leitor de uma civilização que considero fascinante.
No entanto, ele escorrega como romancista ao não conseguir me instigar de forma mais efetiva com o pano de fundo ficcional da narrativa.
As artimanhas dos inimigos de Ramsés, principalmente de seu irmão Chenar e de sua irmã Dolente, desde o primeiro livro, O Filho da Luz, capengam e servem sobretudo como artifício de enredo para movimentar a história principal. Embora passem boa parte da série conspirando contra o protagonista, raramente me transmitiram a sensação de representar uma ameaça real.
As mesmas facilitações de enredo continuam a todo vapor em Sob a Acácia do Ocidente, mas não pretendo narrar mais uma vez meu descontentamento com certas conveniências narrativas que, talvez, um romancista mais experiente tivesse conseguido contornar ou evitar.
Apesar de Jacq retratar Ramsés com um olhar de adoração e encantamento místico, é possível visualizar com certa clareza a silhueta do grande personagem histórico por trás dos adornos da pena do autor. Naturalmente, não é possível saber até que ponto essa imagem corresponde ao homem real, mas ela me pareceu revelar muito da admiração que Christian Jacq nutre por seu protagonista histórico.
O Ramsés histórico foi um governante impressionante, conhecido por seu longo reinado e por suas inúmeras realizações. Durante seu reinado, o Egito foi próspero e influente. Ramsés ampliou e construiu templos e diversos monumentos grandiosos, firmou alianças importantes, incluindo a assinatura do tratado de paz entre egípcios e hititas, além de ter sido, historicamente, um mestre da autopromoção. Menciono tudo isso porque parte desses aspectos aparece na série de maneira convincente e compatível com aquilo que encontrei em minhas leituras sobre o período.
Eu já havia tido contato com Ramsés anteriormente nas aulas de História, mas tive meu interesse despertado principalmente pelo espetacular poema Ozymandias, de Percy Bysshe Shelley, e foi aí que decidi adquirir os livros de Jacq. Apesar disso, foi apenas depois de fazer a leitura desta série que acabei instigada a pesquisar mais sobre este faraó e os motivos que o levaram a ser lembrado como Ramsés, o Grande.
Ao final, o que ficou evidente para mim ao concluir a série de Christian Jacq foi que o egiptólogo convence mais do que o romancista. Ainda assim, saio dessa leitura satisfeita, pois os livros aumentaram mais ainda em mim o desejo de conhecer melhor Ramsés, seu reinado e o fascinante universo do Egito Antigo.