Devo admitir que fiquei bastante confusa lendo esse livro (muito natural, ao ler Clarice 😂), mas esse foi em um nível inimaginável, fiquei com a sobrancelha franzida por tanto tempo, que ao finalizar a leitura, minha cabeça estava doendo. Pretendo reler o livro e ver se a experiência de leitura mude com o passar do tempo, mas o que eu tenho a dizer por enquanto é: Confusão.
Eu gostei bastante da ideia da Clarice querer escrever tudo o que se passa no "instante-já", no momento em que ele ocorre, mas que já não o é mais, quando tenta descrevê-lo:
"Estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais."
Li uma resenha, em que uma menina dizia que o livro incomodaria pessoas organizadas, por não possuir uma ordem, muito menos uma lógica racional.
Pelo fato do livro ser escrito através da narrativa de uma pintora, e que iremos nos perder em meio às palavras, pensamentos e devaneios dela.
É um livro que tenta expor e explicitar o que se passa dentro da mente no instante-já.
Em busca de algo inalcançável. Pois como a própria Clarice diz: que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais.
Trechos Preferidos ✍🏻📚❤️
Tinha que existir uma pintura totalmente livre da dependência da figura — o objeto (...)
Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido.
Estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais.
O instante-já é um pirilampo que acende e apaga. O presente é o instante em que a roda do automóvel em alta velocidade toca minimamente no chão. E a parte da roda que ainda não tocou, tocará em um imediato que absorve o instante presente e torna-o passado.
Mesmo que eu diga “vivi” ou “viverei” é presente porque eu os digo já.
Não sei captar o que existe senão vivendo aqui cada coisa que surgir (...)
Quero é uma verdade inventada.
Não sei sobre o que estou escrevendo: sou obscura para mim mesma.
Eternidade: pois tudo que é nunca começou. Minha pequena cabeça tão limitada estala ao pensar em alguma coisa que não começa e não termina — porque assim é o eterno.
Há muita coisa a dizer que não sei como dizer. Faltam as palavras. Mas recuso-me a inventar novas.
Para onde vou? e a resposta é: vou.
Quando eu morrer então nunca terei nascido e vivido: a morte apaga os traços de espuma do mar na praia.
Agora é um instante. Já é outro agora.
O que não vejo não existe? O que mais me emociona é que o que não vejo contudo existe. Porque então tenho aos meus pés todo um mundo desconhecido que existe pleno e cheio de rica saliva.
Mas há perguntas que me fiz em criança e que não foram respondidas, ficaram ecoando plangentes: o mundo se fez sozinho? Mas se fez onde? em que lugar? E se foi através da energia de Deus — como começou? será que é como agora quando estou sendo e ao mesmo tempo me fazendo? É por esta ausência de resposta que fico tão atrapalhada.
Antes do aparecimento do espelho a pessoa não conhecia o próprio rosto senão refletido nas águas de um lago. Depois de um certo tempo cada um é responsável pela cara que tem. Vou olhar agora a minha. É um rosto nu. E quando penso que inexiste um igual ao meu no mundo, fico de susto alegre. Nem nunca haverá. Nunca é o impossível. Gosto de nunca. Também gosto de sempre. Que há entre nunca e sempre que os liga tão indiretamente e intimamente?
O futuro é o que sempre existiu e o que sempre existirá.
Estou prestes a morrer-me e constituir novas composições.
Estou me exprimindo muito mal e as palavras certas me escapam.
Terei que morrer de novo para de novo nascer? Aceito.
Vou voltar para o desconhecido de mim mesma
Que música belíssima ouço no profundo de mim.
Nada existe de mais difícil do que entregar-se ao instante.
Segurar passarinho na concha meio fechada da mão é terrível, é como se tivesse os instantes trêmulos na mão. O passarinho espavorido esbate desordenadamente milhares de asas e de repente se tem na mão semicerrada as asas finas debatendo-se e de repente se torna intolerável e abre-se depressa a mão para libertar a presa leve. Ou se entrega-o depressa ao dono para que ele lhe dê a maior liberdade relativa da gaiola. Pássaros — eu os quero nas árvores ou voando longe de minhas mãos. Talvez certo dia venha a ficar íntima deles e a gozar-lhes a levíssima presença de instante.
Neste mesmo instante estou pedindo ao Deus que me ajude. Estou precisando.
Precisando mais do que a força humana. Sou forte mas também destrutiva. O Deus tem que vir a mim já que não tenho ido a Ele. Que o Deus venha: por favor. Mesmo que eu não mereça. Venha. Ou talvez os que menos merecem mais precisem.
O girassol é o grande filho do sol. Tanto que sabe virar sua enorme corola para o lado de quem o criou.
Realizo o realizável mas o irrealizável eu vivo (...)
É uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde.